O estudante Andrei Ritz Silva, 14 anos, é um rapaz de sorte. Fraturou a coluna cervical após mergulhar em água rasa, mas não ficou paraplégico. O que ele classifica como milagre também ocorreu com outro paciente do Hospital de Estadual (HE) de Bauru. As duas exceções foram registradas em apenas uma semana. O destino, no entanto, tem sido desfavorável com a maioria das vítimas de acidentes da mesma natureza.
Em 69% dos casos, a pessoa fica paralisada. A limitação, considerada uma das mais graves seqüelas de acidentes para o ser humano, levou a equipe de ortopedia e traumatologia do hospital a alertar a população para risco, mais freqüente no verão. Em função das altas temperaturas, famílias inteiras procuram lagoas, represas, rios e piscinas, mas não se atentam para a profundidade do local.
Foi o caso de Adrei, morador de Pirajuí. Se acidentou ao mergulhar num “braço” do rio Tietê, em Pongaí. “A água estava na canela. Mergulhei e bati a cabeça. Não conseguia me movimentar nem para pedir ajuda”, relembra. Situações semelhantes resultam em casos de morte por afogamento, esclarece o cirurgião Orlando Costa Dias, ortopedista e traumatologista especializado em coluna e que operou o adolescente.
Andrei teve tempo de receber assistência médica e retomar, lentamente, os movimentos porque o cunhado o retirou da água. “Ele veio devagar porque achou que fosse brincadeira. Me puxou pelas costelas. Fiquei apavorado. Só pensava nisso (na possibilidade de ficar tetraplégico). Chamaram a ambulância. Cinco dias depois fui operado”, conta o estudante.
A cirurgia, nos casos em que o pescoço é forçado para frente ou para trás, serve apenas para estabilizar a coluna do paciente para que outros danos não ocorram. No caso de Andrei, o ortopedista tirou um osso da bacia dele e o colocou entre duas vértebras.
“Foi um caso bem grave, tanto que no momento ele perdeu o movimento e foi internado quase sem sentir os braços. É um processo chamado choque de medula. Foi muita sorte. Se ele não fosse transportado adequadamente, o quadro poderia ter se agravado”, explica Dias.
Ele ressalta que o socorro às vítimas desse tipo de acidente deve ser feito por profissionais especializados. O ideal é chamar o serviço de resgate do Corpo de Bombeiros, que tem treinamento especial para o atendimento. O trauma pode provocar lesão grave na medula óssea.
Ela é responsável por conduzir, ao longo da coluna, impulsos que, ao comando do cérebro, fazem com que pernas e braços se mexam. Quando ocorre o traumatismo dos nervos que percorrem a coluna, eles perdem a função de transmissores e a pessoa fica tetraplégica, explica a assessoria de imprensa do HE.