As guitarras são distorcidas, o vocal é gritado, rasgado, as músicas têm quase 25 anos mas o som é limpinho, limpinho - um punk rock brasileiro do século 21. É assim o projeto “MTV Especial Capital Inicial - Aborto Elétricoâ€, no qual a banda de Dinho Ouro Preto, Yves Passarell, Flávio e Fê Lemos revive as canções da lendária primeira banda punk de Brasília, que tinha Renato Russo e os próprios irmãos Lemos em sua formação.
O material de divulgação da gravadora “informa†que “agora sim podemos dizer que a obra de Renato Russo está completa. O início de sua carreira era a única lacuna que faltava a ser preenchida e esse disco faz esse favorâ€. Não é bem assim, na realidade. Flávio e Fê, assim como André Pretorius (que deixou a banda logo nos primeiros meses) dividem boa parte da autoria das composições. As únicas que são unicamente de Renato integraram o repertório posterior da Legião Urbana - “Tédioâ€, “Químicaâ€, “Que País É Esse?†e “Geração Coca-Colaâ€.
O disco não revive Renato, não tem intuito de homenageá-lo ou - pior - ser mais um lançamento retirado dos baús esquecidos para satisfazer a sede de fãs vorazes por novos “tesouros†(que fazem seus autores se revirarem, onde quer que estejam). O mérito do projeto é de registrar, pela primeira vez, nove músicas do Aborto Elétrico que nunca haviam sido gravadas decentemente. A proposta é simples e o Capital a cumpre com honestidade.
Em entrevista ao JC Cultura, Flávio Lemos explica que a vontade de gravar o Aborto Elétrico já existia há algum tempo. â€œÉ um material que a gente acha muito bom, além da importância pelo lado pessoal. Foi minha primeira banda, mas é a banda pioneira, que deu origem ao rock de Brasília. Toda aquela movimentação começou com o Aborto Elétrico, a partir disso é que a cena acontece. As bandas todas eram da mesma turma de amigos e elas se formaram em torno do Aborto Elétricoâ€, conta.
Lemos define o “MTV Especial Aborto Elétrico†como um capricho de uma banda de sucesso que soube colocar novamente a carreira em andamento depois do projeto “Acústicoâ€. Para ele, as canções - mais velhas do que a maioria do público do Capital, compostas por volta de 1980 - ainda têm o que dizer. “São músicas atuais, tem letras que são atemporais, mas mesmo as que são específicas, que falam de um momento político da época, valem para hojeâ€, diz. “São músicas compostas por adolescentes, eu tinha 16 anos, o Renato tinha 18 ou 19. Éramos adolescentes tocando para adolescentesâ€, completa o baixista.
Para o produtor Rafael Ramos (ex-integrante do Baba Cósmica e ex-VJ da MTV), Lemos é só elogios. “Procuramos fazer o (som) mais próximo do que era o Aborto Elétrico, guitarra distorcida, vocal raivoso. A sonoridade, nesse espírito, é mérito do Rafael porque ele soube fazer. Sem ele, não teríamos chegado ao que queríamos. Ficamos felizes e queremos o Rafael para o próximo disco do Capital. Mas claro que não voltaremos a ser punk, não somos punk há muito tempoâ€, frisa.
“Anúncios de refrigeranteâ€
O disco abre com “Tédio (com o T bem grande pra você)â€, com as guitarras altas dando idéia do que vem pela frente. A letra define bem o porquê do movimento punk ter explodido em Brasília: uma cidade de burocratas sem nada para fazer na qual os jovens da classe média alta só podiam mesmo explorar sua revolta na música. A próxima é “Love Song Oneâ€, faixa de trabalho do CD, que estava inédita até então e caberia perfeitamente em um disco “de carreira†do Capital.
“Fátima†e “Veraneio Vascaína†ganham peso extra e vocal mais acelerado de Dinho, assim como “Químicaâ€, “Baader-Meinhof Blues n.º 1†e “Que País É Esse?â€. Os destaques ficam mesmo para as inéditas, como “Helicópteros no Céuâ€, “Ficção Científica†e “Anúncio de Refrigeranteâ€, todas sobre a solidão e a vida dos jovens na cidade, e “Submissaâ€, “Heroína†e “Despertar dos Mortosâ€, menos datadas e mais pesadas.
“Benzinaâ€, que fecha o álbum, ganhou apenas versão instrumental. Segundo Flávio Lemos, foi a primeira letra escrita por Renato Russo. â€œÉ uma piada, uma brincadeira, inclusive em cima de uma música dos Ramones, ‘Now I Wanna Sniff Some Glue’ (agora eu quero cheirar cola), e essa é a versão tropicalâ€, diz. Ele comenta que advogados da banda e da gravadora sugeriram que a letra não fosse incluída, nem mesmo no encarte (que ganhou um carimbo de “Proibidoâ€) por conta do conteúdo apologístico.
â€œÉ um risco que a gente não pode correr. Infelizmente no Brasil, mesmo que a Constituição afirme liberdade de expressão garantida, qualquer juiz de qualquer lugar pode achar que é apologia às drogas - o que não deixa de ser - e o disco vai ser apreendido. A gravadora não pode se arriscar, com 50 mil discos nas lojas. Ao invés de tirar a música, mantivemos instrumental, o vocal basicamente não dá para escutarâ€, explica. Liberdade, ditadura... Bem-vindo de volta a 1981.