Cultura

Rock de Brasília

Diego Molina
| Tempo de leitura: 4 min

As guitarras são distorcidas, o vocal é gritado, rasgado, as músicas têm quase 25 anos mas o som é limpinho, limpinho - um punk rock brasileiro do século 21. É assim o projeto “MTV Especial Capital Inicial - Aborto Elétrico”, no qual a banda de Dinho Ouro Preto, Yves Passarell, Flávio e Fê Lemos revive as canções da lendária primeira banda punk de Brasília, que tinha Renato Russo e os próprios irmãos Lemos em sua formação.

O material de divulgação da gravadora “informa” que “agora sim podemos dizer que a obra de Renato Russo está completa. O início de sua carreira era a única lacuna que faltava a ser preenchida e esse disco faz esse favor”. Não é bem assim, na realidade. Flávio e Fê, assim como André Pretorius (que deixou a banda logo nos primeiros meses) dividem boa parte da autoria das composições. As únicas que são unicamente de Renato integraram o repertório posterior da Legião Urbana - “Tédio”, “Química”, “Que País É Esse?” e “Geração Coca-Cola”.

O disco não revive Renato, não tem intuito de homenageá-lo ou - pior - ser mais um lançamento retirado dos baús esquecidos para satisfazer a sede de fãs vorazes por novos “tesouros” (que fazem seus autores se revirarem, onde quer que estejam). O mérito do projeto é de registrar, pela primeira vez, nove músicas do Aborto Elétrico que nunca haviam sido gravadas decentemente. A proposta é simples e o Capital a cumpre com honestidade.

Em entrevista ao JC Cultura, Flávio Lemos explica que a vontade de gravar o Aborto Elétrico já existia há algum tempo. â€œÉ um material que a gente acha muito bom, além da importância pelo lado pessoal. Foi minha primeira banda, mas é a banda pioneira, que deu origem ao rock de Brasília. Toda aquela movimentação começou com o Aborto Elétrico, a partir disso é que a cena acontece. As bandas todas eram da mesma turma de amigos e elas se formaram em torno do Aborto Elétrico”, conta.

Lemos define o “MTV Especial Aborto Elétrico” como um capricho de uma banda de sucesso que soube colocar novamente a carreira em andamento depois do projeto “Acústico”. Para ele, as canções - mais velhas do que a maioria do público do Capital, compostas por volta de 1980 - ainda têm o que dizer. “São músicas atuais, tem letras que são atemporais, mas mesmo as que são específicas, que falam de um momento político da época, valem para hoje”, diz. “São músicas compostas por adolescentes, eu tinha 16 anos, o Renato tinha 18 ou 19. Éramos adolescentes tocando para adolescentes”, completa o baixista.

Para o produtor Rafael Ramos (ex-integrante do Baba Cósmica e ex-VJ da MTV), Lemos é só elogios. “Procuramos fazer o (som) mais próximo do que era o Aborto Elétrico, guitarra distorcida, vocal raivoso. A sonoridade, nesse espírito, é mérito do Rafael porque ele soube fazer. Sem ele, não teríamos chegado ao que queríamos. Ficamos felizes e queremos o Rafael para o próximo disco do Capital. Mas claro que não voltaremos a ser punk, não somos punk há muito tempo”, frisa.

“Anúncios de refrigerante”

O disco abre com “Tédio (com o T bem grande pra você)”, com as guitarras altas dando idéia do que vem pela frente. A letra define bem o porquê do movimento punk ter explodido em Brasília: uma cidade de burocratas sem nada para fazer na qual os jovens da classe média alta só podiam mesmo explorar sua revolta na música. A próxima é “Love Song One”, faixa de trabalho do CD, que estava inédita até então e caberia perfeitamente em um disco “de carreira” do Capital.

“Fátima” e “Veraneio Vascaína” ganham peso extra e vocal mais acelerado de Dinho, assim como “Química”, “Baader-Meinhof Blues n.º 1” e “Que País É Esse?”. Os destaques ficam mesmo para as inéditas, como “Helicópteros no Céu”, “Ficção Científica” e “Anúncio de Refrigerante”, todas sobre a solidão e a vida dos jovens na cidade, e “Submissa”, “Heroína” e “Despertar dos Mortos”, menos datadas e mais pesadas.

“Benzina”, que fecha o álbum, ganhou apenas versão instrumental. Segundo Flávio Lemos, foi a primeira letra escrita por Renato Russo. â€œÉ uma piada, uma brincadeira, inclusive em cima de uma música dos Ramones, ‘Now I Wanna Sniff Some Glue’ (agora eu quero cheirar cola), e essa é a versão tropical”, diz. Ele comenta que advogados da banda e da gravadora sugeriram que a letra não fosse incluída, nem mesmo no encarte (que ganhou um carimbo de “Proibido”) por conta do conteúdo apologístico.

â€œÉ um risco que a gente não pode correr. Infelizmente no Brasil, mesmo que a Constituição afirme liberdade de expressão garantida, qualquer juiz de qualquer lugar pode achar que é apologia às drogas - o que não deixa de ser - e o disco vai ser apreendido. A gravadora não pode se arriscar, com 50 mil discos nas lojas. Ao invés de tirar a música, mantivemos instrumental, o vocal basicamente não dá para escutar”, explica. Liberdade, ditadura... Bem-vindo de volta a 1981.

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