Os quatro cemitérios municipais de Bauru - da Saudade, São Benedito, Cristo Rei, Redentor - e o Jardim do Ypê, que é particular, devem estar lotados hoje, Finados, dia de homenagem aos mortos – a previsão é de 70 mil visitantes entre sábado passado e hoje. Mas a necrópole instalada no Instituto Lauro de Souza Lima, com cerca de 2.500 pessoas sepultadas, deve receber somente entre 100 e 150 pessoas.
Aberto na década de 30 especialmente para sepultamento dos portadores de hanseníase, atualmente é o mais esquecido da cidade. “Agora a média é de dois sepultamentos por ano, de moradores da colônia que estão morrendo em função da idade e até alguns ex-pacientes, que acabam sendo trazidos para ser enterrados aqui. Mas nas décadas de 40 e 50, chegou a se ter sete oito sepultamentos por dia”, conta Elias de Souza Freitas, presidente da Sociedade Beneficente Enéas Carvalho de Aguiar, que administra o asilo-colônia.
Ontem, véspera de Finados, não havia flores no cemitério. A única alteração na necrópole, localizada ao fundo de uma plantação de eucaliptos, era a pintura nova dos jazigos, feita especialmente para a data. Mas muitos sepultamentos não têm construções, apenas uma placa afixada na cova com dados da pessoa enterrada no local.
O único visitante da tarde era o pastor evangélico Aparecido Teodoro, 77 anos, cuja mãe era portadora de hanseníase e foi enterrada no cemitério, em 1951. “Vim orar no túmulo dela, mas não por ela, mas sim agradecer a Deus pelo ventre que me gerou. Os evangélicos oram pelos vivos porque os mortos não precisam mais”, explicava ao lado do túmulo.
Teodoro, que mora na Vila Industrial, conta que até tentou levar um buquê de flores para o jazigo de sua mãe, mas perdeu-se no caminho do cemitério e acabou deixando o ramalhete na estrada. “Fazia dois anos que eu não vinha visitar o túmulo dela e acabei me perdendo”, justifica. Da família, é o único que mantém o costume. “Somos em sete irmãos, mas só eu estou vivo”, comenta.
Como a maioria das pessoas enterradas no Cemitério do Instituto Lauro de Souza Lima, a mãe de Teodoro morava no asilo-colônia. “Ela morava em Óleo, região de Manduri. Mudou-se para cá, para tratamento, em 1939, quando eu tinha 10 anos. Morou aqui por 20 anos”, relata.
Asilo-colônia
O Instituto Lauro de Souza Lima começou a funcionar ainda na década de 20, quando portadores de hanseníase, na época denominada lepra, eram discriminados da sociedade. “Eles vieram para essa região e montaram barracas. Entre 1928 e 1929, 64 municípios da região de Bauru se cotizaram e fundaram o asilo-colônia e depois o hospital”, relembra Freitas.
Na década de 40, o asilo-colônia chegou a ter 1.400 moradores, todos portadores de hanseníase. “Era como uma pequena cidade. Como as pessoas sabiam que não poderiam retornar por causa da discriminação, aqui elas faziam tratamento e trabalhavam. Aqui tinha igreja, cinema, cassino, cadeia, fábrica de colchões e de refrigerante”, enumera. Atualmente, moram no local 74 pessoas, ex-pacientes que perderam os vínculos com suas famílias e portadores de doenças de pele de vários Estados do Brasil e até do exterior que fazem tratamento de doenças de pele no Instituto Lauro de Souza Lima, hoje um centro de pesquisa com reconhecimento internacional.