Todas as formas de ansiedade têm como nascente o medo. E ele é uma emoção fundamental para a sobrevivência. Quem não teve medo deixou seus genes na boca de um predador. Um experimento que cito consiste em desenhar um quadrado de um metro de lado no chão e pedir para que um grupo de pessoas - cada uma em um quadrado - fique 30 minutos dentro dos limites. Podem fazer qualquer coisa: dançar, pular, dormir, enfim, o “que der na telha”. A única proibição é pisar nas linhas.
Após esse período, coloca-se em cada participante um óculos de realidade virtual que simula o mesmo metro quadrado como sendo o topo de um pilar com altura equivalente a um prédio de 20 andares. Nessa situação, vários participantes ajoelham-se - o que é ótimo! Só faltava ficar pulando em um momento desses... Entretanto, um grupo de pessoas cai. O medo derruba esses indivíduos. No primeiro caso, temos o medo - e por extensão a ansiedade - como emoção protetora. No segundo, o excesso de ansiedade derrubou os participantes. É a primeira forma de ansiedade que temos que perseguir nesse período de provas: a ansiedade protetora e normal. Mas como reconhecer o que é normal e anormal durante as provas? Imagine-se no ambiente da prova. Você olha sua identificação que está colada em sua mesa, aguardando a chegada da prova.
De repente, alguém entra com a pilha de provas na sala. Você não consegue desgrudar os olhos dela. As mãos estão um pouco suadas e a boca parece estar um pouco seca... Isso é normal! As provas são distribuídas. Quando a prova é colocada na sua frente, parece que o mundo silencia. Isso é normal! Até que chega o fatídico: “Podem abrir as provas!”. Nesse momento, o mundo silencia... Isso é normal! Você abre e ao avistar um desenho, se desespera: “Ai, meu Deus, caiu mapa!” Isso não é normal! É óbvio que cairão mapas! Respeite a prova, mas não a transforme em um filme de terror. A ansiedade deve ser convertida em concentração. Haverá questões que você não conseguirá resolver. Façamos algumas contas: no vestibular da Fuvest do ano passado, quem fez 81 pontos passou para a segunda fase para a vaga de medicina, o curso mais difícil de ingressar. Você acha que esse candidato sabia as 81 questões? É óbvio que não! Algumas foram “no chute”. Quantas? Em pelo menos 19 questões esse aluno teve dificuldade (ele errou 19 questões). Considerando de modo simplista que foram chutadas cerca de 20 questões entre cinco prováveis alternativas, esse candidato acertou cerca de 4 questões (20%). Das 81 acertadas, imaginemos 77 feitas com segurança. Houve problemas em 23 delas! Guarde esse número.
Voltemos ao cenário da prova. Você respirou e iniciou a resolução. A primeira e a segunda questão você conseguiu resolver sem grandes dificuldades. Na terceira, não tem a menor idéia de como resolvê-la. Inicia-se a autoflagelação: “Isso não pode acontecer!” Na quarta questão, a história se repete: “Eu não estou acreditando.” A quinta questão traz um certo alívio, você consegue resolvê-la. Na sexta, você olha e se desespera: “Eu sabia que isso iria acontecer.” Você jamais pode assumir essa postura. Eu exemplifiquei três situações difíceis. Lembre-se: quem passou para a segunda fase viveu isso, pelo menos, 23 vezes!
Não podemos idealizar que não enfrentaremos situações complicadas durante a prova. É certo que elas ocorrerão. Ter isso em mente não gera frustrações e traz alívio. Não exija perfeição de si mesmo. E não tenha medo de ficar ansioso na prova. Se o que gera a ansiedade é medo, ter medo de ficar ansioso só aumentará a ansiedade. Aí, sim, essa necessária emoção que tem a função de ajudar pode te derrubar. Boa prova!
O autor, Celso Lopes de Souza, é médico pela Universidade Federal de SP, onde atua em psiquiatria