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Necessitamos de silêncio


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Estamos na era da comunicação, sobretudo pela palavra escrita, falada, cantada e computadorizada. Apesar de todo seu encanto e sua beleza, a moderna comunicação não prima pelo silêncio, que é também um meio de comunicação entre as pessoas e com Deus. Necessitamos do silêncio, particularmente nos dias atuais. Infelizmente, o silêncio é muitas vezes encarado como inútil, aborrecedor e perda de tempo. Há um silêncio que poderíamos chamar de funcional (necessário para toda convivência humana), que mesmo não sendo o mais importante, é indispensável para a vida de família, da comunidade, da cidade e da sociedade. Esse tipo de silêncio é por demais violado. Nossos espaços físicos são geralmente invadidos pelos ruídos os mais diversos e geralmente atordoantes. A tranqüilidade de nossas casas se esvai com os sons das TVs, dos rádios e de outros instrumentos eletrônicos. Nossas festas são marcadas pelos sons ensurdecedores das bandas musicais que levam as pessoas a conversarem entre si quase aos gritos.

Nossas ruas e praças são tomadas por carros de sons com volume tão alto que incomodam os transeuntes, as moradias, os hospitais, as igrejas, etc. E que dizer desses carros, caminhões e motos com escapamentos desregulados? Os quase sempre precários conjuntos habitacionais populares, sobretudo das grandes cidades, são construções onde o silêncio é praticamente impossível. Há quem afirma que esses conjuntos habitacionais urbanos são propositadamente edificados de tal modo que conduzam as pessoas à massificação, impedindo que pensem e reflitam. Aqui entram também em questão os ruídos, não audíveis exteriormente, dos tão propalados walkman e discman, muito usados pelas crianças e jovens.

E, convenhamos, que até mesmo em muitas de nossas igrejas, nas celebrações litúrgicas, exagera-se no volume dos instrumentos musicais que nunca deveriam encobrir as vozes. O som demasiadamente alto enerva e neurotiza as pessoas, impedindo-as de refletir, orar, relacionar-se e comunicar-se tranqüilamente. Ao que me consta, sons que ultrapassem 60 decibéis são geralmente prejudiciais aos nossos ouvidos. Decibelímetro é o aparelho mais usado para a medição da intensidade dos sons. Os inúmeros ruídos de nossas cidades (carros de som, bandas musicais, etc.) quase sempre ultrapassam largamente os 60 decibéis.

Aliás, vigora em Santa Cruz do Rio Pardo-SP, uma bem elaborada lei municipal sobre poluição sonora que deveria ser mais respeitada. O silêncio funcional deveria levar as pessoas a uma forma de silêncio mais perfeito, que é o psicológico ou existencial. Um silêncio que faz com que a pessoa se conheça melhor, encontre-se consigo mesma, pense e reflita, procure e encontre a paz interior.

Do silêncio psicológico ou existencial a pessoa pode mais facilmente passar para o silêncio religioso ou contemplativo. Um silêncio contemplativo que conduz ao encontro e à comunicação com Deus. Escreveu o sábio São Tomás de Aquino: “Tenha o gosto do silêncio, procurando a intimidade com Deus na solidão”. A respeito desse silêncio religioso, é elucidativa a bela e poética passagem do primeiro Livro dos Reis: “Na montanha de Horeb, Deus disse a Elias: Sai da gruta e fica na montanha diante do Senhor. E eis que o Senhor passou. Um grande e impetuoso furacão fendia e quebrava os rochedos diante do Senhor, mas o Senhor não estava no furacão. Depois do furacão houve um terremoto , mas o Senhor não estava no terremoto. Depois do terremoto um fogo, mas o Senhor não estava no fogo. Depois do fogo houve o murmúrio de uma brisa suave. Quando Elias ouviu o murmúrio da brisa, cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se na entrada da Gruta” (1 Rs, 19, 11-13). O Senhor estava presente na brisa suave e silenciosa. Amemos o silêncio. Ele é precioso, ele faz bem. Parafraseando o apóstolo São Paulo: o silêncio é prestativo, não se ostenta, nada faz de inconveniente, não se irrita, tudo suporta e jamais passará.

O autor, Lourenço Maria Papin, é frei

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