Você está de acordo em acabar com o uso do “h” no início das palavras, com o fim dos dígrafos “sc” e “sç”, do “m” antes do “p” e “b” ou do dígrafo “ss”? Você concorda que a letra “g” não seja mais empregada com o valor de “j” ou que a letra “x” deva corresponder a um único som e não a cinco, como ocorre atualmente?
Para propor essas e muitas outras mudanças está surgindo em Bauru a Organização Não-Governamental (ONG) “Alfabeto Sem Amarras”. “Vamos lutar para que se faça uma revolução em nosso idioma, com regras modernas e convencionais, facilitando, por conseqüência, o aprendizado aos milhões de brasileiros analfabetos”, diz a carta escrita por José Perea Martins e direcionada aos interessados em fazer parte da ONG. “Nossa luta não é utópica. É patriótica”, finaliza a carta.
Martins é autor do livro “Reforma do Idioma Português: Proposta Não Utópica”, com lançamento previsto para o próximo mês. Servidor público municipal durante 33 anos, Martins mostra-se incomodado com as inúmeras regras da língua portuguesa, que na opinião dele, só servem para dificultar o aprendizado.
“Estudo desde criança e tem muita coisa que eu ainda não sei. Então pergunto, o erro é meu?”, questiona Martins. Segundo ele, o projeto de reforma da língua tem como objetivo facilitar o ensino e contribuir para erradicar o analfabetismo entre os brasileiros.
“O Brasil é um dos países com maior número de analfabetos do mundo. Numa análise superficial do problema, poderíamos equacioná-lo e chegar à conclusão seguinte: ou o nosso idioma é de dificílimo aprendizado, ou nossos professores, em sua grande maioria, seriam ineficientes ou despreparados”, diz um trecho do livro.
Martins conta que começou a notar essa dificuldade que as pessoas têm com a escrita quando trabalhava como chefe de Gabinete na Prefeitura de Bauru. Foram 14 anos nessa função. Ele lembra que na hora de fazer os relatórios “as pessoas sumiam”. Descobriu mais tarde que essas pessoas tinham medo de errar uma palavra, um acento ou cair na armadilha de qualquer outra regra da língua portuguesa.
“As pessoas estudam anos e anos e não sabem se a palavra é escrita com ‘s’ ou com ‘x’”, aponta Martins, destacando que a letra “x” tem cinco sons diferentes, o que inevitavelmente acaba confundindo quem escreve.
Isso sem falar nos acentos e hífens que também dão sua importante contribuição para estabelecer a dúvida. “O hífen é a maior tragédia. Sempre temos que recorrer às regras específicas”, protesta.
Tudo isso será levado à discussão nas reuniões da ONG, que estão previstas para começar no início do próximo ano. “É necessário pôr o dedo na ferida”, disse Martins. Ele reconhece que haverá resistência às mudanças, mas acredita que um dia elas poderão ser colocadas em prática. “As coisas mudam o tempo todo. Se a língua não acompanhar vai ficar para trás.”
Mais pobre
Martins sabe que a sua proposta, uma vez adotada, empobrecerá a língua portuguesa, mas os benefícios disso, segundo ele, justificam a mudança. Na avaliação dele, a língua deixará de ser dominada apenas por uma “casta de privilegiados”, em benefício da maioria.
Ele comenta que suas propostas são apoiadas até mesmo por membros da Academia Brasileira de Letras. Ao abrir o debate sobre a reforma em nível municipal, com a criação da ONG em Bauru, Martins espera que a iniciativa “ganhe corpo” e ultrapasse fronteiras, chegando aos níveis estadual e nacional.
“Um idioma deve naturalmente unir todo o povo e firmar a Nação. Isso, no Brasil, ocorre na linguagem falada, mas na escrita divide seus habitantes em letrados e iletrados”, escreve o autor no prólogo de seu mais recente livro. Natural de Presidente Alves, Martins teve publicado o livro “As Vinte e Sete Funções da Palavra Que” e “Ano 2025 – As Extraordinárias Atividades de um Professor”.