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Sangue, baixaria e repulsa


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Carlos Alberto Di Franco, articulista do JC e especialista em Ética Jornalística, dizia em muitas de suas aulas na Fundação Cásper Líbero: se as TVs não zelarem pela qualidade do que exibem, as instituições do País um dia acharão outras fórmulas de coibir os exageros da telinha, numa tentativa de proteger a sociedade. Isso pode ser censura? Talvez, mas será uma reação ao lixo televisivo e à falta de um comportamento ético por parte das emissoras.

O corte do sinal da Rede TV! por 25 horas, determinado pela Justiça nesta semana por causa da baixaria do programa “Tarde Quente”, vai ao encontro do que disse o professor Di Franco. Não foram poucas as estocadas da emissora em seus telespectadores, principalmente via João Kleber, figura máxima da apelação ao chulo, ao pornográfico, ao vexatório. E isso não apenas no seu programa vespertino, o “Tarde Quente”. Há ainda o noturno, em que se exibem supostos “testes de fidelidade” com casais simulando um “barraco” no palco após verem cenas de traição que se assemelham a filmes eróticos.

Tudo isso por uma única causa: os aparelhinhos do Ibope instantâneo, que medem em poucas casas de São Paulo uma discutível audiência que se estenderia, na mesma proporção, em nível nacional. Enquanto essa causa não deixar de ser o parâmetro, a TV não vai parar de pagar altos salários para os “Joãos Kléberes” e muitos outros adeptos da apelação a qualquer custo. Não vai parar de fazer do telespectador uma latrina para onde é evacuada uma programação deformada e de péssimo gosto.

Mas, lembremos que a TV é uma concessão pública e, reza a Constituição do País, precisa ter um caráter educativo. Ora, isso parece uma ironia ao se constatar o que, de fato, é levado ao ar, em praticamente todas as emissoras que, de um jeito ou de outro, apelam para ter audiência e, com isso, garantir anúncios num burro ciclo vicioso em que todos morrem no final. Morre a possibilidade de educar com uma programação inteligente, morre a credibilidade da emissora e, com isso, morre também a boa imagem do produto anunciado.

Para lembrar outra frase de Di Franco, quantidade de espectadores não significa aprovação, tampouco credibilidade, essa palavra que significa nada menos que a sobrevivência de qualquer meio de comunicação. Foi sem credibilidade que morreu o “Notícias Populares”, o famoso (e muito lido) jornal “espreme e sai sangue”. E é sem credibilidade que morrem muitos veículos que pensam ser o leitor, o ouvinte, o telespectador uma massa curiosa em volta de um cadáver estendido ao chão.

Esquecem-se esses bastiões do sensacionalismo que, após verem o cadáver, os espectadores passam ter um sentimento inverso ao da curiosidade. Passam a ter repulsa. Repulsa pelo fato noticiado. E, em seguida, repulsa por quem o noticiou apenas visando o “vil metal”. (O autor, Marcos Brogna, é jornalista graduado pela Fundação Cásper Líbero e editor-chefe do jornal “O Liberal”, de Americana-SP)

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