Na sexta-feira, véspera do último feriado, o bauruense César Tavares Lugo, 33 anos, viveu momentos que jamais vai esquecer. Saindo da Capital rumo a Bauru, o empresário presenciou o pouso de emergência de um helicóptero em plena Marginal Pinheiros. Apenas a visão do acontecimento já seria fato inesquecível, mas Lugo foi além. Ele foi o herói do acidente.
Diretor de uma empresa metalúrgica situada na cidade de Agudos, o bauruense estava em São Paulo a negócios desde quinta-feira. Como sua reunião se estendeu além do previsto, Lugo resolveu dormir em um hotel e retornar a Bauru na manhã seguinte. Ao acordar, por volta das 7h, já vigorava o horário de rodízio de carros na cidade (na sexta-feira, dia do acidente, era proibido o tráfego de veículos com placas com número final 9 e 0).
Como precisava voltar para Bauru, Lugo entrou em seu Focus - placa com número final 9 - e atravessou São Paulo em ziguezague. “Pensei que desta forma eu poderia entrar na Marginal Pinheiros e sair da Capital sem ser multadoâ€, conta. O empresário não foi multado, mas o trajeto escolhido mudaria sua vida. “Quando estava na Marginal, olhei para o lado esquerdo e vi um helicóptero voando muito baixo. Sabia que algo de errado estava acontecendoâ€, lembra ele que já pilotou planadores no Aeroclube de Bauru.
A Marginal Pinheiros estava bastante movimentada. O relógio do bauruense marcava 8h10 e a aeronave se aproximava da ponte Eusébio Matoso. “Nesse momento, escutei um barulho muito alto do motor do helicóptero. O piloto estava fazendo uma manobra chamada de auto-rotação (procedimento de emergência para que a aeronave ganhe sustentação)â€.
Ao realizar a manobra, o helicóptero começou a avançar na direção do empresário. “Percebi a aproximação e brequei o carro. Uma moça que estava do meu lado (em outro carro) não viu e avançouâ€, narra. Uma das hélices da aeronave acertou o capô do Astra da analista de sistemas Cláudia Nishi.
Na seqüência, o helicóptero tombou lateralmente e outra hélice furou um pneu do Versailles da fisioterapeuta Luciana Ruas Cardoso. Nenhuma das duas se feriu.
“O helicóptero deslizou alguns metros e parou debaixo da ponte Eusébio Matosoâ€, afirma Lugo. Ele ainda dirigiu por 100 metros adiante da ponte temendo uma possível explosão e parou o veículo. “Desci correndo - deixei o carro aberto - e fui na direção do helicópteroâ€, relembra.
O piloto Leonardo Rebuffo, 28 anos, saiu da aeronave por um “buracoâ€, de acordo com Lugo. “Fiquei no meio da Marginal gritando para outro homem que estava no helicóptero: ‘Sai daí que vai explodir’â€, narra. O empresário percebeu que o passageiro do helicóptero não se mexia. Aproximando-se mais, notou que o homem na cabine usava uma bota ortopédica. Dentro do helicóptero estava o repórter da Rádio Eldorado, Geraldo Nunes, 47 anos, portador de poliomielite.
Lugo tentou pegar o extintor da aeronave, mas não conseguiu. Ele não sabe explicar se estava travado ou se o nervosismo o impediu. Como não conseguiu retirar o extintor, ele foi na direção do repórter com o intuito de salvá-lo o mais rápido possível. “O passageiro estava em choque. Fui até a cabine, quebrei a porta e puxei ele para foraâ€, explica.
Carregando o repórter no colo, Lugo correu para longe do helicóptero, enquanto Nunes chorava e repetia: “Não acredito que você me salvou. Não acredito que conseguiu me tirar de láâ€, relata o empresário.
“Ele disse que trabalhava na imprensa e pediu para que eu o levasse até o prédio do jornal O Estado de São Pauloâ€, relembra. Lugo levou o repórter ao local indicado e retornou a Bauru. Os dois se encontraram na última segunda-feira, no programa do Jô Soares, para relembrar o acidente e comemorar o ato heróico.
Histórico dos fatos
Na sexta-feira passada, por volta das 8h15, um helicóptero modelo Robinson 22 precisou fazer um pouso forçado na pista expressa da Marginal Pinheiros no sentido rodovia Castello Branco, na capital paulista. A aeronave comandada pelo piloto Leonardo Rebuffo e com o repórter Geraldo Nunes a bordo bateu em dois carros e deslizou sob a ponte Eusébio Matoso.
Não houve feridos graves, apenas os tripulantes sofreram ferimentos leves. A Marginal ficou totalmente interditada no sentido Capital-Interior, com um congestionamento de 106 quilômetros. O laudo da perícia técnica sobre o que causou o acidente está previsto para ficar pronto dentro de três semanas.