Cultura

Quando muito acontece

Diego Molina
| Tempo de leitura: 4 min

O cineasta e roteirista Cameron Crowe é um exímio contador de histórias, especialmente quando a matéria-prima de seus filmes tange ou mergulha diretamente no universo pop - como os ótimos “Quase Famosos”, “Jerry Maguire” e “Vanilla Sky”. Em “Tudo Acontece em Elizabethtown”, que estréia hoje em Bauru, o habilidoso diretor faz seu filme mais pessoal, na jornada de um personagem em busca de crescimento e de si mesmo. Entretanto não entrega mais do que uma simples - ainda que sensível e bem estruturada - comédia romântica.

O carismático Orlando Bloom, de “Senhor dos Anéis” e “Cruzada”, parece mais preocupado em acertar o sotaque americano do que em interpretar o designer Drew Baylor, o rapaz em busca de um sentido na vida - o que não chega a atrapalhar. Quando o filme o encontra, ele está prestes a encarar um gigantesco fracasso profissional e o provável término de um relacionamento. A solução natural que encontra é dar cabo da própria vida em seu apartamento recheado de bens de um novo jovem rico.

Crowe presta-se, a partir daí, a dar o clima certo ao filme que planejava. Alguns críticos queixaram-se da falta de ação mas “Elizabethtown” não é enfadonho em momento algum. Ao acompanhar Drew após a notícia da morte de seu pai - o que atrapalha seu suicídio -, o diretor permite-se delinear, pela interpretação de Bloom e pela rica trilha sonora, os momentos em que o rapaz parece estar em estado de torpor, sensação de que a notícia ruim ainda não lhe bateu com toda a força.

Assim, o filho-profissional-bem-sucedido-distante-de-casa é obrigado a reencontrar a família e resgatar o corpo do pai em sua cidade-natal, Elizabethtown, Kentucky. A impressão de ausência de vida no protagonista, especialmente ao deparar-se com a morte do pai, é reforçada com a presença de Kirsten Dunst, sempre lindíssima, como a comissária de vôo Claire. A moça, heroína romântica que é mais uma entidade do que personagem, parece ser o foco de luz e otimismo que o atropela e deixa marcas de alegria e paixão, suficientes para Drew procurar por ela e receber um motivo para viver.

“Queria um filme que apresentasse personagens que parecessem reais, que levassem o público para dentro de suas vidas e que, quando acabasse, sentíssemos falta deles como se fossem pessoas que havíamos conhecido duas horas atrás”, diz o diretor, em entrevista divulgada pela distribuidora. â€œÉ engraçado, mas, desde o início, sempre resisti em escrever histórias sobre a minha vida e a minha família. Depois, porém, fui percebendo que quanto mais pessoal era a história, mais ela mexia com as pessoas”, admite.

Para Kirsten Dunst, a trama faz com que comédia, romance e drama se encaixam com leveza e sensibilidade. “Foi uma das melhores personagens que já li para uma mulher da minha idade, e estava muito bem escrito. Claire é muito positiva o tempo todo. Este filme é sobre a vida. Não é só uma comédia ou só um drama ou só um romance - é apenas vida. É sobre aqueles momentos íntimos entre as pessoas. Há muitas histórias diferentes combinadas. E se você olhar mais de perto, cada fala e cada ação significa alguma coisa”, diz.

Momentos e trilhas

Com Drew acordado para a vida - ainda que não tenha recebido o baque de toda a situação -, o filme entra por momentos onde é impossível não imaginar que tudo aquilo poderia acontecer com qualquer um. O último encontro com a família, no qual ele ajuda o primo a educar seu filho, o cerimonial de despedida do pai e o “enterro” hilário dão o tom para que o rapaz entre na verdadeira jornada, acompanhado de ensinamentos típicos de livros de auto-ajuda, um dos pecados do filme, e do belo presente feito por Claire, pelo interior dos Estados Unidos.

Até o fim, Crowe cresce a trilha sonora e faz dela, mais do que em outros filmes, a protagonista. “Geralmente, quando vou começar a escrever um roteiro, antes de tudo começo com música. Tenho um caderno onde anoto todas as músicas que quero que façam parte do filme no qual estou trabalhando. Num determinado momento, o caderno fica duas vezes maior do que o roteiro - com umas 50 músicas para uma cena”, comenta o diretor.

“Tudo Acontece em Elizabethtown” ganhou título em português de comédia-pastelão, para dar a impressão de ser uma coleção de gags e acidentes para fazer rir. Mas em sua aparente despretensão, o filme chega ao que mais importa: de ser uma história como as outras, como as que todos querem acreditar e contar.

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