Rio - Ainda é um processo lento, mas a economia brasileira ruma cada vez mais em direção ao Interior. Dados do Produto Interno Bruto (PIB) dos 5.560 municípios brasileiros revelam o fenômeno: as cidades que não eram Capitais e estavam fora de regiões metropolitanas aumentaram sua participação no PIB do País de 46% em 1999 para 49,7% em 2003. O peso das Capitais caiu - de 31,9% para 28%. Já o das regiões metropolitanas praticamente se manteve: de 22,1% para 22,3%.
O crescimento da indústria longe dos grandes centros e o maior dinamismo econômico de atividades desenvolvidas no Interior em detrimento aquelas tipicamente concentradas nas Capitais explicam a interiorização do PIB, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que divulgou ontem dados do PIB municipal.
“Ainda é cedo para dizer que esse movimento configura uma tendência, mas os dados mostram que as Capitais vêm perdendo peso. Temos ainda poucos dados para ver isso (de 1999 a 2003), mas a migração de empresas para o Interior e o fato de atividades do Interior estarem crescendo mais do que a de Capitais são hipóteses para esse fenômenoâ€, disse Roberto Olinto, do IBGE.
A conjuntura econômica desfavorável (renda em queda e juros elevados), diz, também pode ter afetado mais intensamente a atividade econômica das Capitais. Mas ainda persiste uma forte concentração do PIB: 24,13% de toda a produção nacional de bens e serviços foi gerada por dez cidades, que concentram 15,9% - da população do País: São Paulo, Rio, Brasília, Manaus, Belo Horizonte, Campos (RJ), Guarulhos (SP), Curitiba, Duque de Caxias (RJ) e Porto Alegre, nessa ordem de participação no PIB.
Na outra ponta, 1.289 municípios (ou 23,1% do universo de 5.560) contribuíam com somente 1% do PIB. Beneficiadas pelo petróleo, Campos e Duque de Caxias foram as que mais avançaram, passando de 27.ª e 15.ª em 1999 para 6.ª e 9.ª em 2003. Foi um efeito de maior volume de produção e de aumento do preço do petróleo - 69% em dólar de 1999 a 2003.
Maiores metrópoles do País, São Paulo e Rio foram as que mais perderam peso no PIB - de 11,6% e 5,6% em 1999 para 9,4% e 4,3% em 2004. Em apenas um ano, de 2002 para 2003, São Paulo perdeu 1 ponto percentual - de 10,4% para 9,4%. Cada ponto do PIB correspondia em 2003 a R$ 15,5 bilhões. Foram possivelmente, segundo o IBGE, mais afetadas pela conjuntura desfavorável.
De modo geral, as Capitais perdem espaço, para cidades da região metropolitana ou do Interior. Só Capitais de Estados de menor atividade econômica avançaram - Porto Velho (RO), Palmas (TO), Teresina (PI), João Pessoa (PB), Maceió (AL) e Vitória (ES). Em apenas dois Estados - Bahia e Santa Catarina - as Capitais têm menos peso no PIB local.
Salvador perdeu em 2003 o status de maior contribuinte para o PIB baiano para Camaçari, sob efeito da instalação da Ford na cidade. Desde 1999, Joinville lidera em Santa Catarina.
O presidente da Confederação Nacional de Municípios (CNM), Paulo Ziulkoski, diz que há uma “pequena descentralização†da produção de riquezas. “Entretanto, os municípios com menores PIBs não conseguiram aumentar sua participação no bolo nacionalâ€, afirma.
Indústria
De 1999 a 2003, Capitais perderam participação no PIB da indústria, enquanto o Interior avança. As Capitais caíram de 27,1% no valor da produção da indústria para 22,9%. Já no Interior, o peso subiu de 45,5% para 49,3%. Nas regiões metropolitanas, foi de 27,3% para 27,8%.
“Grande parte do movimento de ganho das cidades fora de Capitais e regiões metropolitanas se explica pelo crescimento da indústria fora dos grandes centrosâ€, disse Sheila Zani, coordenadora do PIB dos municípios do IBGE.
Setorialmente, a indústria é também a que mais concentra: oito cidades tinham 25% da produção industrial em 2003, e 42 municípios representavam 50% do produto industrial. Já a agricultura é a que mais desagrega sua produção: 164 cidades concentram 25% da produção.
No caso dos serviços, três cidades concentram 25% - São Paulo, Rio e Brasília, que não estava na lista em 2002 e passou a integrá-la em 2003. Os maiores PIBs agropecuários são de cidades ligadas à produção de laranja: Itápolis (SP) e Mogi Guaçu (SP), seguidas por Toledo (PR), Petrolina (PE) e Sorriso (MT) - esta última por causa da soja. Apesar do maior volume de produção da soja, a laranja tem mais peso por causa do preço mais elevado do produto no mercado externo.
*Pedro Soares