Uma viagem em um ônibus circular bairro a bairro, longa ou curta, sempre deixa algo a ser recordado. É uma criança que chora desde o início ao fim do trajeto. É uma senhora que fala alto, que perturba até o motorista. É a bagunça de alguns jovens que não respeitam os mais velhos, é um senhor cuja boca não pode ficar sem um cigarro. É um casal que discute seus problemas. É alguém que lê um jornal e atrapalha o passageiro da frente. É uma conversa iniciada do fato de estar sentado ao lado de outra pessoa. E foi essa última coisa que aconteceu comigo quando tomei um ônibus circular para ir ao meu trabalho, já que meu carro estava na oficina para um simples reparo.
O dia estava bonito. Havia sol, um sol que brilhava e refletia seus raios sobre o verde da paisagem que eu via pela pequena janela do ônibus circular, que passavam lembranças pela minha cabeça, eu via gente, carros, construções, indústrias, pessoas sem serviço. Meu companheiro de poltrona era um senhor idoso, magro, barba e bigode raspados, cabelos brancos, pele enrugada pela idade avançada e ia para o mesmo destino que eu, um famoso instituto onde eu trabalho há quase 30 anos, reconhecido mundialmente pela sua excelência no tratamento de uma moléstia. Um senhor muito simples, roupa comum, rosto comum... enfim, uma pessoa comum. A conversa teve início de um modo também comum.
Começamos a conversar, primeiro foi uma análise da situação da saúde pública no nosso Estado e no País, depois se iria fazer calor ou chover? Depois, foram passadas em revista a atual situação da nossa administração local, os desacertos, a ponte inacabada e os erros constantes do nosso administrador, que na campanha era cheio de promessas. A economia, de um modo geral e global, foi também discutida, finalmente, entramos em detalhes particulares: quem ele era e quem eu era; o que ele fazia e o que eu fazia. Ele era tratador de cavalos no hipódromo de uma cidade da região, e eu sou o que sou, um funcionário público. Contou-me detalhadamente, como tratava os cavalos puro-sangue do seu patrão.
Pela manhã, segundo ele, os animais são retirados dos estábulos para dar um passeio para esticar os músculos. Sobre eles prendem grossas mantas, para evitar que se resfriem. Cada cavalo é conduzido por seu tratador, que puxa vagarosamente. Quando o passeio termina, os animais são recolhidos dos estábulos, enquanto os tratadores preparam a refeição. Refeição sadia e suculenta: leite em pó, aveia, cenoura, alfafa, vitaminas... A água, previamente filtrada, já está nos bem lavados recipientes. Isso se repete todo o dia, pois, cada cavalo, representa grande investimento em dólares para seu dono.
Eu pensei durante o percurso dentro do ônibus circular, as imagens que passavam pelo retrovisor, cavalos e crianças, hipódromos e favelas, animais e gente. Essas foram as comparações que ficaram na minha mente, quando o trajeto terminou, fiquei pensativo e lembrei das crianças que eu vi nos cruzamentos da cidade sem limites.
Um cavalo coberto com grossas mantas, e uma criança dormindo dentro de uma caixa de papelão em pleno relento na Praça Rui Barbosa da minha cidade. Um passeio para esticar os músculos, e a poliomielite paralisando as pernas. Um leite em pó comprado em sacos, e uma pequena boca sugando seios magros e vazios. Um estábulo desinfetado, e uma favela aqui do meu lado com esgotos correndo a céu aberto, infestada de ratos e insetos peçonhentos. Uma vitamina misturada à cenoura, e uma anemia crônica ceifando pequenas vidas. Uma água filtrada em um recipiente limpo, e águas poluídas ajudando a matar de verminose nossas crianças. Um cavalo: investimento alto em dólares, e milhões de crianças no abandono, analfabetas, passando fome.
Minha viagem de regresso. Pelas pequenas janelas do ônibus circular passam coisas e gente. Passam cavalos e crianças... eu fiquei refletindo na grande diferença, cavalo puro-sangue e as crianças do nosso imenso Brasil. Pense nisso.
Jaime Prado - repórter cinematográfico da TVUSC - Mtb. 038076