Nacional

Palocci desconversa sobre demissão

Por Gustavo Patu Chico de Gois e Luciana Constantino | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Brasília - Em novo depoimento no Congresso, desta vez na Câmara dos Deputados, o ministro Antônio Palocci (Fazenda) se disse menos importante que a política econômica e foi evasivo ao responder a insistentes questões sobre sua permanência no cargo. Afirmou, porém, estar “empenhadíssimo” em manter as diretrizes fixadas por sua pasta.

“O senhor fez uma pergunta que é a única que eu não posso responder, sobre a minha permanência no governo. Só o presidente Lula pode dar essas respostas”, disse, sorrindo, ao deputado Fernando Coruja (PPS-SC). “Vou colaborar com o presidente até o momento em que ele achar que estou ajudando, a ele e ao País.”

Conforme a reportagem havia informado, Palocci pediu demissão na quinta-feira passada, o que não foi aceito pelo presidente, que ontem afirmou que o ministro está “firme” no governo. O ministro, desgastado por acusações de corrupção e críticas à política econômica encabeçadas por sua colega da Casa Civil, Dilma Rousseff, reivindica a recomposição de seu poder no governo.

Na Câmara, porém, Palocci foi ameno ao falar das divergências com Dilma e elogioso em todas as menções a Lula. “Estive nesses últimos dias com o presidente Lula e tive um longo diálogo com ele sobre a política econômica, sobre a condução do País, as questões que todos nós enfrentamos, e o presidente Lula tem reafirmado muito fortemente as decisões de seu governo.” “Vocês sabem que eu tenho uma relação muito próxima com o presidente e considero muito o lado humano do presidente Lula.

É uma pessoa que durante todos esses três anos olhou com atenção a política econômica e o tempo todo destacava aspectos da política que se refletiriam ou não nas pessoas mais pobres.” Num clima mais agressivo que o do depoimento de Palocci ao Senado na semana passada, os deputados da Comissão de Finanças e Tributação tentavam em vão arrancar do ministro pistas sobre sua disposição de permanecer na pasta e respostas aos ataques de Dilma.

Palocci repetiu várias vezes que considera “normal” haver divergências no governo, disse que Dilma é “uma pessoa muito responsável” e negou a intenção de elevar o aperto fiscal, principal motivo do conflito com a Casa Civil. “Continuo sem saber qual é a divergência entre a Fazenda e a ministra”, queixou-se o líder do PSDB, Alberto Goldman (SP). “Eu estaria fazendo dumping (concorrência desleal) com a oposição se fizesse o que o senhor está pedindo”, brincou Palocci.

A sério, avaliou que há “meias-mentiras e meias-verdades” nas versões sobre os atritos internos. Diante das insistências dos deputados, no início da noite, depois de quase oito horas de depoimento, Palocci afirmou: “Não fui discutir meu cargo com o presidente (anteontem). Não discuti esse assunto, não vou relatar aqui minhas conversas com o presidente, porque não sou indiscreto. Não há nada acontecendo nesse campo.”

“Tranqüilo”

Questionado se se sentia “confortável” no cargo, o ministro usou os elogios recebidos de Lula anteontem para sair pela tangente. “Estou absolutamente tranqüilo, o presidente Lula de novo anteontem reafirmou os princípios da política econômica”, disse.

“Eu penso que acima das pessoas - e eu não sou uma pessoa acima de qualquer avaliação política ou administrativa - estão as políticas. Eu acho que muito mais importante do que a presença do ministro da Fazenda é a presença da política econômica, que eu acho que não pode mudar. Estou empenhadíssimo em mantê-la e melhorá-la.”

Nesse tema, mostrou coerência com o discurso de Lula que mencionou. Em cerimônia no Palácio do Planalto, o presidente tratou das decisões econômicas na primeira pessoa do singular. “A área econômica tem uma política acordada e discutida com o presidente Lula. Não fazemos uma política do Ministério da Fazenda. A política econômica é do governo. Imagine se a política econômica é uma invenção particular, deste ministro!”, disse Palocci, segundo o qual Lula “lidera o governo de maneira concreta e absoluta, arbitra de forma democrática, mas decisiva”.

Ao longo da audiência, que começou às 10h37 e não havia se encerrado até o momento, o ministro seguiu a linha costumeira de seus pronunciamentos públicos. Não elevou a voz, não demonstrou irritação com as provocações, elogiou o Congresso e a oposição, riu da piadas alheias e fez as suas próprias. Confrontado com a possibilidade de ser substituído pelo líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), um de seus críticos, limitou-se a dizer, sorrindo: “O Mercadante é meu líder”.

Depois, questionado se era “conservador, fundamentalista e neoliberal”, devolveu: “Tenho de escolher entre os três?”. Palocci deu-se ao trabalho de fazer uma exposição inicial de 50 minutos sobre os assuntos que motivaram sua convocação à comissão três meses atrás, nos quais poucos ainda estavam interessados -repasses de verbas aos municípios e a renegociação das dívidas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) com a rede bancária.

Como havia feito no Senado, o ministro aproveitou a audiência para comemorar os resultados da economia, dividindo o mérito com governos anteriores, e pregar a necessidade de um acordo suprapartidário destinado a estender as atuais metas da política fiscal por um prazo de, por exemplo, dez anos. A outra audiência que o ministro participaria, na comissão que analisa o Fundo para Desenvolvimento do Ensino Fundamental (Fundeb), foi adiada.

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