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Apoio dos pais ajuda a enfrentar preconceito

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 4 min

Fábio*, 30 anos, vendedor, decidiu “camuflar” sua orientação sexual durante alguns anos. Ele conta que na adolescência e juventude viveu uma crise individual e entrou em um “mundo de mentiras”.

Para seguir o padrão imposto pela sociedade, teve diversos relacionamentos heterossexuais e chegou a ficar noivo. “Namorei muitas garotas e foi muito deprimente, porque eu não estava apenas me enganando, estava envolvendo terceiros porque convivia com as famílias das meninas com quem eu namorei. Tudo isso causava uma certa depressão. Eu ficava muito mal”, diz.

O problema acabou quando o vendedor decidiu aceitar sua orientação sexual. “Hoje eu me aceitei, as pessoas me aceitam e tudo ficou muito mais claro. Minha vida melhorou 100%”, observa ele, que atualmente possui um bom relacionamento com a mãe. “Demorou um tempo para nós podermos nos relacionar bem, mas hoje eu conto para ela quando estou saindo ou namorando alguém”, diz.

Situação semelhante foi vivida pelo cabeleireiro Anderson Clayton Pereira, 24 anos. Segundo ele, uma de suas maiores preocupações era decepcionar a mãe. “Eu não aceitava no começo. Pensava na minha mãe, que me criou sozinha, com muitas dificuldades”, conta. Para evitar tristezas e sofrimentos, ele preferiu esconder sua orientação sexual por alguns anos.

“Tive namoradas e relacionamentos com mulheres, mas o tempo foi se passando e eu tive oportunidade de me relacionar com homens. Aí assumi minha orientação sexual”, diz Pereira.

Apesar de angustiado, ele não enfrentou barreiras ao revelar sua homossexualidade para a mãe. Pelo contrário: ela não apenas aceitou como ofereceu apoio para qualquer tipo de problema. “Fiquei um pouco inseguro para chegar e contar, mas aí minha mãe perguntou para o que eu sentia. Ela já desconfiava e não levou um choque”, conta.

Tabu

Embora a homossexualidade faça parte da humanidade, o preconceito e a rejeição ainda persistem. A repercussão do tema em filmes e novelas (leia mais no texto abaixo), ajuda a difundi-lo, mas em muitos casos, ele é tratado como um tabu ou é alvo de piadas de mau gosto.

Por esse motivo, muitos pais temem que o filho possa ser discriminado, uma vez que a orientação sexual contraria o modelo social vigente.

Ao saber que o filho é homossexual, no início, muitas famílias passam por um período de negação. De acordo com psicóloga clínica e psicoterapeuta familiar Maria Ivone Marchi Costa, em alguns casos, os pais são “pegos de surpresa” e sentimentos como raiva e frustração podem vir à tona.

“Existem exceções, mas em geral, quando os pais não desconfiam de nada, enfrentam um choque muito grande. Eles ficam desapontados, decepcionados, não aceitam. Há famílias que mandam o filho para o psicólogo com o intuito de reverter a situação”, explica Costa.

Sentir-se culpado ou culpar algum membro da família é outra forma de reação, diz a psicoterapeuta. “Os pais costumam pensar que ou a mãe não foi muito presente ou o pai foi ausente. Se o homossexual é do sexo masculino, a tendência é culpar o pai”, observa. “Há casos em que os pais se mantém rígidos, excluem emocionalmente o filho homossexual e às vezes pedem para que ele saia de casa”, acrescenta.

Normalmente, as mães são as primeiras a aceitar a orientação sexual dos filhos, aponta Costa. “Mesmo que não compreendam, elas querem que o filho seja feliz e o acolhem. Os homens são mais resistentes e demoram mais um pouco”, diz.

A professora de direito civil e doutoranda em sociologia Cláudia Elisabeth Pozzi concorda. “Conheço uma família com três filhas e uma delas é lésbica. Ela sofre preconceito não por parte das mulheres da família, mas por parte do pai”, exemplifica.

A aceitação da família é essencial para que o homossexual se sinta amado e acolhido, destaca Costa. Quando ele tem o apoio dos pais, fica muito mais fortalecido para enfrentar os preconceitos”, pontua.

*Nome fictício a pedido do entrevistado

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Mídia

Perceber-se diferente dos outros não é fácil em nenhum momento da vida, ainda mais quando o homossexual precisa enfrentar o preconceito social. Felizmente, esse cenário está começando a mudar, observa a psicóloga clínica e psicoterapeuta familiar Maria Ivone Marchi Costa.

Boa parte desse avanço pode ser creditado aos filmes e novelas, cujas tramas abordam a temática. O exemplo mais recente foi o conflito vivido pelo estilista Júnior, personagem interpretado pelo ator Bruno Gagliasso em “América”.

O vendedor Fábio* concorda. “Hoje em dia está muito mais fácil de lidar devido à divulgação da novela. O capítulo final de ‘América’ criou muita expectativa em relação ao beijo dos personagens homossexuais. Até meu pai ficou na sala para assistir”, conta.

Essa também é a opinião do cabeleireiro Anderson Clayton Pereira. “As novelas ajudam muito nessa parte de aceitação. Elas ampliam o conhecimento porque para muitas pessoas a homossexualidade ainda é um tabu”, diz.

Segundo Marchi, a mídia têm contribuído para diluir um pouco o preconceito, mas ele ainda existe. Muitas vezes ocorre dentro dos lares. “Para as famílias, principalmente as muito religiosas, ainda é difícil aceitar. Além disso, o preconceito é produto da sociedade, que gera todos os estigmas e homofobias”, analisa.

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