Tribuna do Leitor

Questão pertinente, título infeliz!


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Em matéria publicada no JC de 20/11/05, a repórter, em seu afã de procurar chamar a atenção para o assunto em pauta, utilizando a alternativa de popularização e do senso comum, comete um deslize e contribui para a desinformação e manutenção da mistificação acerca da atenção aos problemas psicológicos.

Em primeiro lugar, o “divã”, bem como o popular “Freud explica”, se remete a um prática psicoterápica individual vinculada à vertente teórica da Psicanálise, geralmente de longa duração e freqüentemente elitista. Portanto, reduz a um as diversas possibilidades e vertentes teóricas que se ocupam com o atendimento psicoterápico individual. Mais ainda, toma como única o que é apenas umas das possibilidades de atenção aos problemas psicológicos.

Em segundo lugar, aponta a demora no atendimento utilizando-se somente dos dados de um Centro de Psicologia Aplicada de uma universidade. Os serviços públicos não confirmam esses dados e as outras duas universidades também não.Torna-se necessário investigar os motivos de um e outro para que possamos mapear essa realidade. Também não é função dos CPAs suprir a demanda do município por atendimentos psicológicos, pois esses são de responsabilidade das administrações públicas. Por outro lado, os CPAs são estruturas responsáveis pela formação do psicólogo exigido pelo MEC e fornece estágios em quase todas as modalidades de atendimento que existem na Psicologia e não somente atendimento psicoterápico individual.

Em terceiro lugar, apresenta o custo das sessões de psicoterapia individual como um empecilho para a continuidade do atendimento. Essa questão nos remete a discussão da eficácia e resolutividade desse único tipo de atenção aos problemas psicológicos, pois dados de pesquisa desde os anos 80 têm demonstrado que também há um percentual expressivo de abandono do atendimentos nos serviços públicos, ou seja, o problema está para além da questão financeira.

Em quarto lugar, as questões anteriores nos remetem a elaboração das políticas públicas em saúde mental, bem lembrada pela representante do CRP, seja relativa à forma de atendimento, bem como em relação aos dados sobre saúde mental. As Conferências Municipais de Saúde já discutiram e aprovaram a realização do Censo Municipal de Saúde Mental. Até esse momento, o mesmo não foi realizado, apesar de ser um instrumento facilitador da elaboração e implementação de uma política de saúde mental que tenha como objetivo a promoção da saúde, a atenção de qualidade e a resolutividade dos serviços de saúde mental, bem como a qualidade de vida da população bauruense.

Finalizando, a política de saúde mental deve superar o modelo centrado na atenção psicoterápica individual como única forma de atenção aos problemas psicológicos, para não continuar totalmente inadequada, fadada ao fracasso e com pouca resolutividade, nos moldes da atenção em saúde pública (vide a reportagem de capa do JC de 17/11/05 que ilustra essa questão).

Osvaldo Gradella Júnior

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