Nos seus quatro anos na Fórmula Indy, ele correu com os campeões Juan Pablo Montoya, Tony Kanaan, Dan Wheldon, Jimi Vasser, Bryan Herta, Scott Dixon. Foi companheiro de Cristiano da Mata na equipe A.J. Foyt Racing e disputou a mais rica e famosa corrida do automobilismo mundial, as 500 milhas de Indianápolis. O piloto bauruense Airton Daré começou sua carreira no jet ski, onde foi imbatível, mudou de esporte procurando novas emoções, entrou no automobilismo, onde correu na Fórmula Uno, Indy Lights e Indy.
Depois de um grave acidente, Daré voltou ao Brasil há dois anos e realizou o sonho de criança. Construiu um dos mais modernos kartódromos brasileiros, a Toca da Coruja, que no próximo mês terá em sua pista os maiores nomes do automobilismo mundial no Desafio das Estrelas.
Em entrevista ao Jornal da Cidade, Darezinho, como é conhecido, falou da sua saída das competições de jet ski, da sua passagem pela Fórmula Indy, das 500 milhas de indianápolis, de Rubens Barrichello e do Desafio das Estrelas.
JC - Você, que começou no jet ski, como foi a mudança para o automobilismo?
Daré – No jet ski eu já tinha ganho o que tinha para ganhar. Fui campeão Paulista, Brasileiro e Sul-americano. Então, ou eu mudava para os Estados Unidos e começava correr profissionalmente por lá, ou decidia o que ia fazer da minha carreira. Como o jet ski não era uma coisa que ia poder fazer profissionalmente por muito tempo, eu resolvi tentar o carro. O Alexandre Frota (ator) começou a correr na minha equipe de jet ski. Como ele corria na Fórmula Uno, também me convidou para fazer um teste na equipe dele. Foi aí que tudo começou. Comecei a correr na Fórmula Uno, depois fui para a Indy Lights, onde fiquei três anos, em 2000 fui para a Fórmula Indy e fiquei até 2003.
JC - Como foi correr na Fórmula Indy?
Daré – Isso foi legal, porque a gente sempre fica imaginando como seria chegar lá no topo e encarar de frente o pessoal que você sempre assistiu correr. Mas na hora que você chega lá, a vontade de vencer é tão grande que isso acaba desaparecendo. Eu corri ao lado de Montoya, Jimi Vasser, Bryan Herta, Cristiano da Matta, Tony Kanaan, Eliseu Salazar e mais um monte de bons pilotos.
JC – E a experiência de correr as 500 milhas de Indianápolis?
Daré – É uma expectativa muito grande, porque é muita grana que rola. Só de você classificar para a corrida, ou seja, colocar o carro entre os 33 do grid, já ganha um prêmio de US$ 200 mil. São várias premiações. Para você ter uma idéia, o Hélio Castro Neves, no ano de 2001, conseguiu todos os prêmios da corrida e ganhou US$ 1.800 milhões.
JC – E como foi voltar para o Brasil? Foi por problemas financeiros, saudade das família ou a oportunidade de correr na Stock Car?
Daré – Eu tive um acidente muito grave em junho de 2003 e o meu contrato vencia no final do ano com a equipe do A.J. Foyt Racing. Só que eu fiquei dois meses no hospital nos EUA, depois vim para o Brasil, fiquei mais cinco meses me recuperando. Aí deu uma complicação no fêmur e eu tive de voltar para os EUA e fazer outra cirurgia lá. Geralmente, as equipes fecham os contratos com os pilotos até novembro.
Então, eu só fui ficar bom no meio de fevereiro e o campeonato começa em março. Todas as equipes já estavam completas. Mas acho que se eu tivesse insistido, poderia estar lá até hoje, porque na Fórmula Indy sempre tem algum acidente e quando o piloto se machuca eles colocam um substituto. Mas eu resolvi mudar. Como eu já estava aqui (no Brasil) há algum tempo, eu acostumei de novo, então eu resolvi fazer uns contatos na Stock Car. Consegui um patrocínio e uma equipe para correr, a AMG, aliás uma equipe muito boa. Mas eu não me acostumei com a guiada do carro. Tirando meu primeiro ano na Fórmula Uno, eu sempre guiei carro de monoposto (estilo Fórmula 1, com a cabeça para fora). E a Stock Car é muito diferente. Por ser um carro de turismo, é um outro esporte.
Eu não consegui acertar o carro do jeito que eu gostaria, e no ano que eu mudei para a Stock Car, para diminuir os custos da categoria, eles proibiram o treino. Então, você não podia nem ligar o carro antes do treino, o motor era lacrado. E outra coisa, tirando Interlagos e Curitiba, eu não lembrava mais de nenhuma, pois fazia muito tempo que eu não andava no Brasil. E também financeiramente não foi bom. Todo o dinheiro do patrocínio que eu arrumei ficava na equipe. Então, para não ganhar dinheiro e também não me divertir, eu preferi parar.
JC - Tem uma corrida que marcou sua carreira?
Daré - Com certeza, as 500 milhas de Indianápolis em 2000. Eu larguei lá atrás, em 21º, e fui fazendo uma corrida de recuperação. Faltando poucas voltas para o final, eu estava andando mais rápido do que o cara que estava em terceiro e mais rápido do que o Montoya, que liderava a corrida. Já tinha feito o último pitstop e era certo que eu ia vencer esta corrida, mas faltando poucas voltas para o final, meu carro quebrou, jogou óleo para todo lado. Essa corrida me marcou mais do que minha vitória em Kansas.
JC – E atualmente, quais a são os seus planos como piloto?
Daré – Eu não estou à procura nem indo atrás desta possibilidade. Mas eu tenho vontade de voltar na Fórmula Indy ou na Fórmula Kart. Mas não estou indo atrás. Se um dia alguém se machucar lá e ligarem me chamando para voltar eu topo na hora. Mas por enquanto, eu estou por aqui cuidando do kartódromo Toca da Coruja.
JC – Quem é o seu ídolo no automobilismo?
Daré – Como todo brasileiro, meu ídolo no automobilismo é o Ayrton Senna. Mas o Zanardi foi o piloto que mais me chamou a atenção. Quando eu fui para os EUA, eu acompanhava a carreira dele. O Zanardi é um piloto que eu vi fazer coisas que até hoje eu não vi nenhum piloto fazer. As corridas que ele fez naqueles dois anos em que foi campeão e depois do acidente em que perdeu as pernas, colocar próteses e voltar para as pistas, para mim isso foi demais. Então, meus ídolos: o Ayrton Senna, pelo o que ele foi, e o Zanardi, pelo que fez.
JC – E no automobilismo brasileiro hoje quais os nomes que estão fazendo bonito nas pistas?
Daré – Olha. No lado do turismo, tem muita gente boa. O Giuliano Lossaco e o Cacá Bueno estão guiando muito bem.
JC – Em qual dos dois você apostaria no domingo?
Daré - (Risos) Eu aposto no Giuliano. Ele tem mais a cabeça no lugar e a equipe dele é mais preparada para trabalhar nessa situação de pressão. Eu acho que ele tem chances até de correr na Nascar, nos EUA.
No monoposto, eu apostaria no Felipe Massa. Ele está entrando na Ferrari agora, e o Schumacher está prestes a se aposentar. Então, acho que se ele mostrar um bom trabalho nas primeiras corridas do ano ele pode ser o próximo Schumacher.
JC – Você acha que ele tem a chance de ser um novo Schumacher?
Daré – O Rubinho teve essa chance. Mas muita gente não entende esse negócio de preferência. Eu sou amigo do Rubinho, a gente conversa bastante e não é que ele nunca teve essa chance, se não fosse o Schumacher e fosse qualquer outro piloto isso ia acontecer do mesmo jeito. Qualquer equipe observa nas primeiras corridas qual piloto está se destacando mais e a partir disso ele investe todas as fichas em quem pode conquistar o campeonato. Sempre tem um engenheiro que é melhor e ele é indicado para trabalhar no carro do piloto que tem mais chances de vencer, por exemplo.
O Rubinho mesmo me falou: “A minha chance com o "Alemão" está nas três primeiras corridas do campeonato. Tenho que começar sempre na frente dele, só assim vou ter chances dentro da equipe.” E eu acho que o Massinha tem essa chance. Primeiro porque eu acredito no talento dele, e segundo porque o Schumacher não tem mais aquela sede de vitória como tinha no início”.
JC – Você, como piloto, o que recomendaria para quem está querendo iniciar no automobilismo?
Daré – Eu acho que o que me faltou e o que teria me ajudado a vencer mais corridas é o kart. Como eu comecei direto no carro de corrida, eu tive de ir aprendendo durante as competições o que eu deveria ter aprendido com o kart. Para começar, hoje é fundamental a pessoa começar no kartismo e passar pelo menos uns três anos na categoria.
JC – Como está sua expectativa para o Desafio das Estrelas?
Daré – Eu não esperava que isso seria tão grande. Tem gente ligando do Brasil inteiro para comprar camarote para assistir a corrida. Eu achei que seria um negócio mais regional. Fomos no final de semana nas 500 milhas da Granja Viana e todo mundo lá perguntava. Até o Dan Wheldon (campeão da IRL 2005), que correu comigo nos EUA, estava interessado. Apresentei ele para o Massa, eles conversaram, e como o Tony Kanaan, que é companheiro de equipe dele já tinha convidado, eu fiquei sabendo depois que ele confirmou presença.
JC – Como surgiu a idéia do Desafio das Estrelas?
Daré – Eu sou amigo do Carlinhos Romangnolli e ele me falou que o Massa estava com a idéia de um desafio. Eu ofereci a Toca da Coruja e o Massinha me ligou falando se eu não poderia convidar o pessoal que eu conheço dos EUA, pois ele conhece mais os pilotos da Europa.
JC – E quais os planos para o futuro da Toca da Coruja?
Daré – Eu quero fazer um complexo esportivo, não quero que seja apenas um kartódromo. Vamos ampliar o espaço para outros esportes. Quero sempre trazer novos eventos esportivos para Bauru. Vamos construir um restaurante bom para que o público não precise ir para a cidade para comer.
JC – Os karts que serão usados no Desafio são da Toca da Coruja?
Daré – Não. Nós temos um patrocinador que é dono dos motores Biland. Ele vai fornecer os chassis e os motores, todos novos. Para a semana da corrida, o Massa contratou o Glauco Alex, bauruense tricampeão brasileiro de kart. Ele vai andar nos 30 karts e ver quais as diferenças entre um e outro e acertar para que no dia da corrida estejam todos iguais.