Certo dia em Auschwitz, os oficiais nazistas resolveram enforcar dois homens judeus e um jovem diante de todos os prisioneiros do campo de extermínio. Os dois homens morreram rapidamente, mas o jovem, porém, resistia na forca com grande angústia. “Onde está Deus? Onde Ele está?”, perguntava alguém entre os prisioneiros. Depois de algum tempo de silêncio, quando o jovem ainda resistia à morte, ouviu-se novamente o mesmo comentário: “Onde se encontra Deus?” Neste mesmo instante, alguém com voz baixa mas com um tom decidido afirmou: “Onde está Deus? Lá está Ele...pendurado na forca...”
O bem e o mal são, na verdade, criações humanas. Ao nascer, o ser humano inicia um processo civilizatório. Desde o momento que começamos a tomar consciência de nós mesmos e do mundo, vamos assimilando, através de uma determinada educação, os valores de nossa civilização. Assim, o ser humano aprende as noções de bem e de mal. Isso significa que todo processo civilizatório é excludente. Nele aprendemos a condenar determinados comportamentos e a valorizar outros. Desta forma, à medida que amadurecemos, vamos controlando e trabalhando nossos impulsos para que possamos resolver nossos problemas dentro dos parâmetros que determinamos como o bem. Portanto, sob os nossos olhos de adultos, de pessoas que já estão mergulhadas em uma civilização, as crianças são simplesmente más, pois ainda não conseguem segurar seus impulsos.
Deixando todo o romantismo de lado, a criança é normalmente egocêntrica, intolerante e reage de forma agressiva quando sente “seu mundo” invadido ou ameaçado. Aos poucos, a criança aprende a trabalhar seus instintos e a reagir respeitando os direitos e a liberdade dos outros. Este aprendizado é fundamental, pois a criança compreende através dele que, respeitando o espaço do outro, seu espaço também deverá ser respeitado. Na verdade, como afirma Flávio Gikovate, o bem é uma sofisticação da razão. O bem, independentemente das diferenças culturais, representa os comportamentos que possibilitam a vida de todos.
Essencial é não esquecer que o bem é desenvolvido em uma dialética da convivência social. Ele não é somente um produto de uma educação, um movimento unilateral que parte dos adultos para as crianças, mas os seres humanos que vivenciam o processo civilizatório, não somente recebem de forma passiva a noção de bem e de mal, mas também contribuem, com sua individualidade racional e emocional, para o aperfeiçoamento destes valores. De qualquer forma, definindo a bondade como a sofisticação da razão, ela deve ser compreendida como uma característica dos fortes, daqueles que sabem lapidar seus impulsos construindo um espaço social, no qual todos possam desenvolver a vida. Por conseqüência, a maldade é uma característica típica dos fracos, daqueles que, apesar de terem força ou poder para reprimir e matar, não conseguem conduzir suas ações, ou seja, agem segundo seus impulsos.
Fundamental neste processo civilizatório são os valores que nos fazem compreender o bem valorizado por nossa cultura, por nossa civilização. Neste aspecto encontramos um grande problema em nossa contemporaneidade: vivemos uma crise de todas as instituições. Não há instituição que não esteja no momento vivenciando uma crise de valores e, por sua vez , de atuação na sociedade. Porém, a crise institucional é reflexo da crise de valores dos próprios seres humanos. Afinal, são estes seres humanos que compõem e movimentam as instituições. Neste contexto de crise se faz necessário a reflexão sobre os valores e comportamentos que cada um possui e deseja ter.
É necessário se criar uma mentalidade de autonomia, na qual possamos por iniciativa própria e criticamente descobrir o que desejamos como bem em nossa civilização. A crise institucional na sociedade, longe de gerar uma inatividade ou a perda de valores, deve nos fazer pensar com mais profundidade sobre comportamentos justos e adequados. O ser humano, como indivíduo, deve desenvolver princípios reguladores de sua atividade, de sua relação com o mundo e com os outros. Em outras palavras, cada ser humano precisa desenvolver um pensamento ético, se desejamos que nosso espaço social tenha uma qualidade de vida para todos.
Talvez a crise das instituições seja uma oportunidade para que o indivíduo possa pensar por ele mesmo. Talvez estejamos vivendo em um período de transição para uma nova sociedade, na qual o indivíduo não necessite esperar que uma instituição (seja ela família, Igreja, Escola, Estado) venha a forçá-lo a ter um comportamento mais humano. O desafio parece ser, mais do que nunca, individual. Cada ser humano necessita purificar suas noções de bem e mal e agir não simplesmente para a conveniência do grupo, mas para que nossas ações possam formar a atividade política, a convivência social, a dinâmica da economia, as estruturas familiares, etc. Para começar esta reflexão nada melhor que a leitura do livro de Flávio Gikovate “O Mal, O Bem e Mais Além” (Ed. MG).