Seria muito fácil estar hoje navegando no mesmo barco daqueles que estão festejando a cassação do ex-deputado Zé Dirceu. Um barco cuja tripulação foi comandada no mar revolto da Câmara dos Deputados pelos almirantes do PFL e do PSDB, e que teve também tarefeiros de baixa qualificação, inclusive da dita base aliada do governo Lula.
O próprio Lula, em entrevista ao programa Roda Viva, sentenciou: “o Congresso está condenado a cassar o Zé Dirceuâ€, o que, sem dúvida, foi um salvo conduto para entregar a cabeça de seu homem forte e tentar amenizar a crise de seu governo.
Ora, as alianças com o PL, PTB, PP e PMDB, assim como a reforma da previdência e a lei de falências, foram decisões do presidente Lula e seus ministros, incluindo Dirceu, e as cúpulas do PT, PSB e PCdoB.
Como disseram vários deputados, e os ditos analistas que trafegam pelos meios de comunicação, Dirceu não foi cassado pelo que teria feito, mas sim pelo que ele representava enquanto militante do movimento das luta operárias. O objetivo central da cassação de Dirceu foi o de desmoralizar os trabalhadores e os petistas sérios, honestos e lutadores.
Mesmo que as evidências permitissem afirmar que Dirceu poderia ser o autor intelectual do que se convencionou chamar de mensalão, este não foi o motivo da cassação. Mesmo defendendo toda a política de subserviência ao imperialismo do governo Lula que endossou e praticou, Dirceu é conhecido como um dos expoentes do PT, e esta cassação teve como objetivo aquilo que o reacionário senador Bornhausem do PFL declarou: “vamos livrar o país desta raça por trinta anosâ€. Ou seja, esmagar e desmoralizar as lutas operárias dando mais um golpe para a liquidação do PT.
A cassação de Dirceu veio em boa hora para o governo Lula, que tenta abafar a crise para dar continuidade à política que a gerou, mantendo a submissão ao FMI e as alianças que o sustentam. Essa é a questão, e isso independentemente das atitudes de Dirceu sobre o governo, cuja política criticava pontualmente num dia, e defendia calorosamente no outro, num estilo morde e assopra.
A política aplicada pelo governo Lula é totalmente contraditória com o Manifesto de Fundação do PT. Por isso, nós que defendemos as bases que permitiram o PT se erguer como representação política dos explorados e oprimidos, somos Oposição Petista ao governo Lula e, a partir da mobilização do conjunto da classe trabalhadora, cobramos que o governo rompa com Bush e sua política, rompa com os partidos podres no congresso e ponha para fora os ministros capitalistas.
Ao contrário de todas as correntes internas do PT unificadas na defesa da política do governo Lula, nós, da Corrente o Trabalho-Seção Brasileira da Quarta Internacional, não aceitamos participar do governo, pois como é possível apoiar a política de um governo que, eleito pelos trabalhadores, em vez de dar trabalho e terra, distribui esmolas de R$15 a R$75 (bolsa família) e chama isso de política social. Que, ao invés de expandir os serviços públicos como a educação e a saúde, dá incentivo aos tubarões privatistas, terceiriza e promove um desmanche do que é público como no caso da RFFSA e da CBTU. Que, ao invés de fazer uma verdadeira Reforma Agrária, dando terra aos que nela querem trabalhar, incentiva o agro-negócio e protege o latifúndio. Que, ao invés, de criar verdadeiros empregos com salários dignos, tenta fechar as fábricas ocupadas pelos trabalhadores. Que, ao invés de proteger os fracos e oprimidos, protege os milionários, enquanto trabalhadores rurais são assassinados impunemente, dirigentes das lutas populares são perseguidos e presos, trabalhadores são mortos porque lutam por empregos como os calçadistas do RS.
No Brasil, foi a mobilização dos operários, assalariados, funcionários públicos, moradores da periferia, trabalhadores rurais, mulheres, negros, estudantes, índios e outros setores que mudou a cara do país nas últimas décadas e levou o PT ao poder. Usar este poder em benefício dessa maioria explorada e oprimida é a obrigação mínima de um partido dos trabalhadores. Dizemos a todos os companheiros petistas: Essa política de submissão à burguesia e ao imperialismo - reafirmada pela vergonhosa decisão do governo Lula de receber com todas as honras o carniceiro Bush no Brasil, depois de haver enviado tropas para massacrar o povo e pisotear a soberania do Haiti – é que leva o PT a destruição!
Milhares de trabalhadores e militantes resistem contra essa política que ataca seus interesses e é aplicada por um governo que elegeram. Esses milhares não estão dispostos a aventuras “esquerdistas†e por isso rechaçam a divisão das organizações que construíram com tanto esforço, como a CUT, o MST e a UNE, mas tampouco querem vê-las adaptada ‘a ordem do capitalismo e do mercado. Esses milhares de militantes querem se agrupar politicamente para continuar o combate de sua vida. Esses militantes querem falar e ser ouvidos, expressar democraticamente suas posições. Por isso lançamos nacionalmente em 27 de novembro o Movimento PT sem Patrões para afirmar “a vontade de independência política dos trabalhadores, já cansados de servir de massa de manobra para os políticos e os partidos comprometidos com a manutenção da atual ordem econômica, social e políticaâ€, como diz o Manifesto de Fundação do PT.
Com toda legitimidade de construtores do PT nas lutas travadas pelo povo trabalhador, afirmamos a atualidade das suas bases políticas originais e vamos, junto com milhares de outros companheiros, assegurar a continuidade das bases políticas fundadoras do PT.
Continuaremos, nas nossas organizações sindicais e populares, exigindo nas ruas, nas fábricas, no campo, que o governo Lula assuma suas responsabilidades e atenda as reivindicações dos mais de 52 milhões que o conduziram a presidência da república. A Cassação do Zé Dirceu...Ora! (Roque José Ferreira - Membro do diretório estadual do PT e da corrente O Trabalho - Seção Brasileira Quarta Internacional)