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Cinema popularizou Lawrence

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 2 min

Desiludido por ter frustrado o sonho de ver a criação de estados árabes independentes, T. E. Law-rence confessou, ainda nos anos 20, ao poeta Yeats, que se sentia “um ninguém”. “Eu era um ninguém. Fiz alguma coisa e então falhei. Voltei a ser ninguém”, teria dito. De fato, apesar dos feitos no Oriente, da morte trágica, do livro autobiográfico que se tornou um sucesso (“Os Sete Pilares da Sabedoria”), Lawrence nunca foi uma figura muito conhecida internacionalmente até o lançamento, em 1962 de “Lawrence da Arábia”, dirigido pelo inglês David Lean.

Épico no sentido clássico do termo, o filme conta como o oficial inglês quebra protocolos e usa sua inteligência e autoconfiança para se tornar um herói ao liderar, em plena Primeira Guerra Mundial, tribos árabes em batalhas contra os turcos (aliados dos alemães e então em domínio da península árabe). Apesar da longa duração, o filme resume as campanhas de Lawrence à frente dos árabes e seus conflitos com os imperialistas oficiais ingleses sem que, no entanto, a história real seja afetada.

No papel de Lawrence está um jovem Peter OToole que, além da semelhança física com o personagem real, é brilhante ao representar o inglês em toda a sua imponência e também fragilidade. Também irrepreensíveis, Alec Guiness, como príncipe Faissal, Omar Sharif e Anthony Quinn, como líderes árabes, completam o primeiro time do elenco que ainda tem Jack Hawkins e Jose Ferrer.

Lean, um dos grandes artesãos do cinema, tinha acabado de fazer o também clássico “As Pontes do Rio Kwai” quando decidiu filmar a vida de Lawrence. Perfeccionista, rodou grande parte do filme na Jordânia, obtendo as mais belas cenas de deserto já filmadas. O roteiro, baseado em “Os Sete Pilares...” é um grande flashback que começa com a morte do militar e o questionamento por parte de alguns figurões ingleses sobre sua real importância. Ao tentar responder essa pergunta, em quase 4 horas, Lean desconstrói o mito do herói humanizando-o.

Sucesso de bilheteria e de crítica, “Lawrence da Arábia” ganhou sete Oscars, entre eles o de melhor filme, direção e trilha sonora (hoje, clássica, do mestre Maurice Jarre). Sempre presente em qualquer lista de melhores filmes já realizados, o longa tem como grande mérito o equilíbrio entre grandes interpretações e a técnica apurada, além de poder ser visto com prazer mesmo por quem não está familiarizado com o momento histórico no qual ele se desenrola. Steven Spielberg (que ajudou Lean a restaurar o filme em 1992) elegeu a biografia do militar inglês como seu filme favorito e não se cansa de dizer que, quando quer se lembrar de como é “um grande filme”, assiste novamente “Lawrence da Arábia”.

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