O filósofo Michel de Montaigne considerava que o ser humano sofre de uma espécie de tristeza congênita, mas que a Mãe Natureza presenteou a humanidade com um lenitivo: a possibilidade de usar a imaginação, que nos permite criar uma vida de sonhos, para nos distrair. Não há o que nos impeça de imaginar um filme de autoria própria em que sejamos Indiana Jones ou James Bond. “Se construirmos uma vida decente e útil para nós mesmos, teremos menos necessidade de fugir dela para nos entregarmos aos prazeres cada vez mais reduzidos do cinemaâ€, escreveu certa vez a crítica Pauline Kael. Mas mesmo a brilhante Pauline não teria como saber que os brasileiros, décadas depois, estariam confusos ao ver que todas as certezas da monótona vida campestre sucumbiam diante de um país que se modernizava dentro do ambiente de um mundo globalizado. Para os brasileiros, a televisão (mais do que o cinema) forneceu um modelo de coerência narrativa, num mundo excessivamente multifacetado e anárquico.
Em outras épocas, essa função fora executada pela religião, que proporcionava um enredo final sagrado para organizar e explicar o mundo. A ideologia também teve essa função, ao nos deixar acreditar em algum fim último em direção ao qual a vida supostamente progredia. “A verdade é que à primeira vistaâ€, escreveu José Ortega y Gasset, falando a respeito dos usos da ideologia, “a vida é um caos dentro do qual nos sentimos perdidos. Enquanto a religião e a ideologia prevaleceram, não houve grande necessidade de outros enredos. Mas como tanto a religião quanto o dogma ideológico perderam forças diante das complexidades do mundo atual, o fardo de puxar a cortina da fantasia coube à indústria cultural, sobretudo à televisão. Podia-se vergar a vida até encaixá-la em fórmulas familiares e reconfortantes, como as que se viam na telenovela, e com isso domesticar-lhe os terrores. Alguns políticos, no Brasil, apostaram na ideologia e no entretenimento, montaram os melhores espetáculos para o público e escreveram os melhores enredos para si mesmos. Conseguiram, com isso, poder e milhões de votos.
Essa situação é inaceitável: evitar os compromissos com a vida retira-lhe exatamente o que lhe dá significado. Declarando sua posição em O mal-estar da civilização, Sigmund Freud escreveu: “Nós podemos tentar recriar o mundo, construir em seu lugar um outro em que as características mais insuportáveis sejam eliminadas e substituídas por algo mais conforme aos próprios desejos. Mas, como regra geral, todo aquele que num desafio desesperado optar por esse caminho para a felicidade não chegará a nada. A realidade é forte demais.
O indivíduo torna-se um louco, alguém que não consegue encontrar ninguém para ajudá-lo a levar avante seu delírioâ€. Em suma, os políticos que construíram enredos para si mesmos, como José Dirceu, ou espetáculos para o público, como Lula da Silva, são fraudes. Mais do que doenças pessoais, eles são uma patologia social. Do primeiro, nos livramos. Do outro, livrar-nos-emos na próxima eleição. (O autor, Ney Vilela, é professor e historiador)