Bauru possui cerca de 250 crianças e adolescentes nas ruas, atuando como guardadores de carros ou vendedores ambulantes para complementar a renda familiar. Este número poderá ser reduzido em 2006, se a meta do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) e do Grupo Empresarial de Apoio à Criança e ao Adolescente (GEA) for alcançada.
A proposta em ação é estimular pessoas físicas e jurídicas a destinar parte do Imposto de Renda (IR) devido ao Fundo Municipal dos Direitos da Criança e Adolescente (Fumcad), que direciona o recurso a projetos sociais na cidade. “É um marketing social fortíssimo e a custo zero”, explica o coordenador do GEA, Olavo Pelegrina Júnior. A empresa pode divulgar seu investimento e preocupação com o setor social na cidade e interferir positivamente na vida de muitas pessoas.
Nem todas as empresas estão conscientes do seu poder de ação por meio da destinação do IR, que pode ser de até 6% do imposto devido para as pessoas físicas e 1% para as pessoas jurídicas. “Porém, é necessário que o contribuinte pessoa física faça a declaração completa e a pessoa jurídica seja declarante do lucro real”, explica o coordenador do GEA.
Esta restrição reduz o número de pessoas aptas à destinação, explica Pelegrina Júnior, porém, em análise feita pelo GEA, Bauru tem condições de arrecadar perto de R$ 500 mil. “Ao invés desse valor ir para Brasília, poderá ser investido em projetos na cidade, como o Nenhuma Criança na Rua.”
O direcionamento dos recursos é feito pelo Conselho da Criança e do Adolescente, que recebe os projetos das entidades cadastradas para serem avaliados. As reuniões e decisões do Conselho são públicas, podendo ser acompanhadas pelas empresas e cidadãos. Aprovados, os projetos são acompanhados e fiscalizados pelo Conselho e pela Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes).
O empresário da área química José Luiz Woelke, 43 anos, faz sua declaração de IR com base no lucro real e interessou-se pela campanha. “Eu pretendo fazer a destinação de parte do imposto de renda para que este valor seja investido em Bauru”, diz o empresário. Ele comenta que desde que instalou sua empresa no distrito industrial destina cestas básicas a algumas famílias. “Acho importante investir em projetos sociais, principalmente aqueles que atendem a crianças. A informação recebi recentemente no Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo) e decidi aderir”, informa Woelke. Caroline Decarlis, 25 anos, é responsável pela área de marketing de uma fábrica de utensílios plásticos e comenta a adesão da empresa à campanha.
“É certo que as estratégias traçadas pelo GEA, fortemente apoiadas pelas forças vivas da comunidade bauruense, têm um único objetivo, resgatar e proteger nossas crianças, para que através de uma infância saudável, tornem-se adultos verdadeiramente compromissados. A empresa participa e convida outras a fazer este direcionamento do imposto à sociedade bauruense”, diz Decarlis.
De acordo com a presidente do Conselho da Criança e do Adolescente, Andréa Ferreguti, os números de 2004 e 2005 atestam o sucesso da campanha. “No ano passado arrecadamos R$ 150 mil, que foram investidos no projeto Nenhuma Criança na Rua, atendendo a 66 crianças. Desse total, somente três voltaram para as ruas e quatro reprovaram na escola. É importante destacar que o trabalho envolve não apenas a criança, mas toda a família, com cestas básicas, geração de renda e qualificação profissional aos pais, além de um apoio de até R$ 120,00 por mês”, detalha Andréa.
Mito do leão
De acordo com Olavo Pelegrina Júnior, coordenador do GEA, infelizmente muitas pessoas ainda evitam destinar parte do Imposto de Renda por temerem cair na “malha fina” do leão. “É um grande equívoco, porque o Conselho envia para a Receita Federal os dados dos colaboradores, como CNPJ ou CPF, se pessoa física, com os valores doados. A pessoa também informa os mesmos valores na sua declaração e os valores batem”, explica Pelegrina Júnior.
Com base no cálculo do Imposto de Renda devido, a pessoa física ou jurídica deve preencher a guia no site do GEA (www.geabauru.com.br) e pagar no Banespa-Santander até o dia 30 de dezembro. Há também a opção de entrar em contato com o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente pelo telefone (14) 3232-1522. A entidade também faz uma campanha para que empresas estimulem seus funcionários a destinar o IR. “É só entrar em contato, que encaminharemos as guias”, orienta a presidente Andréa Ferreguti.
Responsabilidade social: raridade
Apesar da expressão “responsabilidade social” ganhar espaço e ser incorporada ao discurso de várias empresas, o desenvolvimento de uma política socialmente responsável ainda caminha a passos lentos. O desconhecimento dos benefícios e do próprio conceito colaboram para que haja falta de planejamento de ações que interfiram na sociedade.
Willy Macedo Dantas é relações públicas e em sua tese de mestrado desenvolve o tema responsabilidade social. O pesquisador pretende verificar como o tema tem sido abordado nas empresas. Em sua análise, o que mais ocorre são ações filantrópicas, que nem sempre conseguem modificar a realidade.
De acordo com ele, pode se dizer que a responsabilidade social é também uma atitude, uma cultura socialmente responsável, que não é voltada apenas para as empresas. “É necessário um envolvimento com a comunidade.” Para ele, o envolvimento das pessoas é o que diferencia a filantropia, que é mais emergencial, das ações de responsabilidade social.