Em um dia de inverno trouxeram ao juiz da cidade um homem velho que tremia de frio. O velho havia sido pego ao tentar furtar um pão, pois estava com muita fome. O juiz resolveu cumprir a lei sem fazer exceção alguma. Portanto, condenou o velho a pagar uma multa de dez dólares. Depois de dada a sentença, o juiz enfiou sua mão no bolso e pagou a multa do velho. Em seguida, o juiz voltou-se para o pequeno grupo ali reunido, o mesmo grupo que havia trazido o velho ao tribunal, e condenou cada um a pagar a multa de 50 centavos. O motivo da sentença foi explicado imediatamente: todos eles eram moradores de uma cidade na qual é necessário furtar para não morrer de fome. A quantia paga por eles o juiz entregou ao velho que deixou a sala do tribunal com 47 dólares e 50 centavos.
Para Heidegger, o ser é essencialmente uma atividade. Em outras palavras, o ser humano não é, mas está sendo. Esta atividade de ser consiste na descoberta da verdade, do conteúdo intelectual que podemos retirar de uma realidade e incorporar em nosso viver. Toda a nossa maneira de ser é, na verdade, a síntese daquilo que acreditamos, da “verdade” por nós assumida. Esta verdade que se revela em nossos atos e comportamentos nem sempre é a verdade que dizemos, ou seja, aquela presente em nossos discursos. A verdade de nossas palavras muitas vezes é mais bonita que a verdade de nossos atos.
Mas, verdade (em grego “a-letheia” que significa revelado, não em segredo) é o conteúdo intelectual que deixa as coisas serem como são, e as revela como realmente são. Portanto, a descoberta da verdade está intimamente ligada à liberdade. A liberdade, da qual pertence a insistente existência do “estar aqui”, é a essência da verdade. Não existe verdade sem liberdade de poder pensar, experimentar e compreender como as coisas estão sendo. A verdade aparece quando o sujeito e o objeto se encontram, se procuram e se interpenetram. Um dos inimigos da verdade é o pré-conceito. O preconceito, ou seja, a opinião formada antecipadamente sem a menor ponderação, impede que as coisas sejam como estão sendo. Através do preconceito surge normalmente a hipocrisia, a simulação, a falsidade em mascarar a verdade das coisas. Se o ser é uma atividade, esta não se constitui em mascarar a realidade, mas em primeiro lugar buscar a sua verdade, o “rosto” sem maquiagem do que acontece.
Sendo filha da liberdade, a verdade é, para Jürgen Habermas, um fenômeno social. A verdade das coisas acaba se firmando através do consenso. Porém, consenso não significa simplesmente a opinião da maioria. Consenso no sentido de Habermas não é sinônimo de senso comum. Geralmente, o senso comum é formado por uma minoria e adotado pela maioria sem o menor esforço de análise. A partir do momento que o senso comum adota acriticamente um comportamento, uma idéia ou concepção, o preconceito surge automaticamente. Através do senso comum, uma verdade que mascara a realidade se impõe a todas as pessoas padronizando seus comportamentos. O consenso, ao contrário, tem sua origem na livre discussão. O consenso é a idéia que se constrói e se firma através de argumentos racionais.
A condição para a verdade dos discursos é a potencialidade da concordância dos argumentos que inicialmente seriam contrários. Os outros argumentos precisam se convencer que o seu contrário possui fortes e, até o momento, irrefutáveis informações. Verdade significa, então, a promessa de um consenso racional.
Voltando à questão do ser, da atividade de estar sendo, como disse Heidegger, o viver é uma escola de vida, na qual o ser vai se construindo através da “discussão” social. À medida que vamos conscientemente analisando nossos comportamentos e principalmente os confrontando com os de nossos semelhantes vivemos de forma madura e profunda a atividade de ser. Na maioria das vezes possuímos sobre o nosso viver uma visão unilateral, a “nossa” visão sobre as coisas e aquilo que chamamos de “nossa” verdade. O caminho da maturidade é saber expor nossas verdades subjetivas à discussão com nossos semelhantes. Esta exposição de nosso ser é inevitável. Desejando ou não, estamos nos revelando aos outros automaticamente; afinal, somos constantemente observados e analisados pela sociedade.
O desafio é fazer desta exposição social uma discussão para o crescimento de nosso próprio ser. Isso não significa se moldar àquilo que a sociedade deseja, mas discutir livremente sobre a melhor possibilidade de viver. Esta busca do consenso se faz necessária não somente em nossa vida privada mas, principalmente, quando o nosso ser se entrelaça com o de nossos semelhantes: na nossa dimensão de ser pai, mãe, patrão, empregado, cidadão, político, torcedor de futebol, religioso, etc. Todas estas dimensões do ser devem ser discutidas e refletidas para se criar verdades sobre elas que excluam as contradições. Portanto, uma sociedade se torna madura quando se transforma em um espaço de livre discussão, no qual nenhuma idéia e nenhum comportamento deixa de ser estudado e analisado por todos os interessados. “Para que serve esclarecer os equívocos se as causas persistem” (Jean-Paul).
*Especial para o JC