Desde o surgimento do Estado de Israel, no final da década de 1940, há duas visões de como a nação judaica deve encarar suas relações com os vizinhos árabes. A visão dos grupos religiosos ortodoxos e de boa parte das forças armadas, sob a liderança histórica do partido LIKUD, é a do “Eretz Israel” (Israel Grande). A idéia é construir uma pátria judaica com as maiores dimensões territoriais possíveis, evitando-se que as cidades e as fazendas fiquem próximas a alguma fronteira potencialmente perigosa. Os inimigos de Israel seriam empurrados para uma distância prudente dos conglomerados humanos e das atividades econômicas fundamentais para a existência de Israel. Evidentemente o “Grande Israel” deve dominar as nascentes de águas necessárias para a sobrevivência de toda a nação.
A visão dos grupos de esquerda e dos pacifistas é de “paz por terra”. Consiste em negociar a entrega de territórios para a constituição da pátria palestina, em troca da construção de uma paz respeitosa, que garantiria a tranqüilidade dos povos da região. O Partido Trabalhista de Israel, apesar de algumas guinadas militaristas, é o porta-voz histórico da tese da “paz por terra”. Ariel Sharon é um velho e belicoso general. Sempre foi partidário do “Eretz Israel”. Sobre seus ombros pesam fortes suspeitas de que tenha sido o executor de chacinas em campos de refugiados palestinos. Ao se tornar primeiro-ministro manteve-se como um inimigo intransigente da Autoridade Palestina e de Yasser Arafat. Os tempos mudaram e Sharon parece ter percebido este fato com muito maior clareza que as lideranças palestinas. Após a morte de Arafat, Sharon construiu uma interessante nuance em sua visão do Eretz Israel. O primeiro-ministro continua considerando inegociável a existência de territórios sob soberania palestina nas imediações de Jerusalém, próximos às nascentes de água ou das regiões portuárias de Israel. Mas na faixa de Gaza e em boa parte da Cisjordania, Sharon aceita retirar colônias israelenses e a subseqüente ocupação por palestinos. Mesmo enfrentando forte resistência dos grupos ultraconservadores, Sharon iniciou sua nova estratégia com grande sucesso, na faixa de Gaza.
Sharon acusa Abu Mazen, primeiro-ministro da Autoridade Palestina, de não conseguir conter os grupos Jihad, Mártires de Al Aqsa e Hesbollah. Segundo o chefe de Estado de Israel, a Autoridade Palestina não é capaz de se apresentar na mesa de negociações em condições de avançar no caminho da paz. Enquanto Abu Mazen enreda-se no dilema de dirigir o país sem ter o domínio de sua milícias, Ariel Sharon prossegue a construção do muro que, ao mesmo tempo que sufoca a economia da Autoridade Palestina, amplia a força eleitoral do governante israelense.
Sharon fez sua escolha; é hora de Abu Mazen mostrar que realmente governa a Palestina e que é capaz de defender, com articulação política e inteligência, os interesses de seu povo nessa nova realidade geopolítica regional.
O autor, Ney Vilela, é professor de história e articulista