Deputados e senadores trataram de garantir o Papai Noel (deles) com a autoconvocação extraordinária do Congresso. Isso vai custar R$ 100 milhões aos cofres públicos, devido ao pagamento em dobro dos salários quando os parlamentares trabalham durante o recesso. O cenário político brasileiro continua o mesmo. As matérias a serem votadas no tempo extra são aquelas relegadas às gavetas há meses, quando não há anos. Houvesse mais seriedade, já teriam sido decididas. Acontece que os parlamentares trabalham apenas de terça a quinta-feira para poderem passar o fim de semana em casa e voltar sem atropelos à Brasília. O recesso no Congresso é de 90 dias, férias três vezes mais longas do que aquelas contempladas aos trabalhadores. Somados os sábados, domingos e feriados, dos 365 dias do ano, em 192 os deputados e senadores estão de folga.
Naqueles R$ 100 milhões de despesas não estão computadas as horas extras dos funcionários que tiveram 15% de aumento, retroativo a janeiro. Recorde-se que o presidente da República vetou esse reajuste aprovado pelo Congresso. Fere a Lei de Responsabilidade Fiscal pela ausência de previsão orçamentária. Lula, para resolver o problema da falta de rubrica, simplesmente tirou do seu saco de bondades uma Medida Provisória abrindo crédito suplementar de R$ 363 milhões. Esqueceu-se de que, ele mesmo, havia vetado a lei e argüido a sua inconstitucionalidade junto ao STF. Sexta-feira, primeiro dia da convocação extraordinária, os plenários das duas Casas estavam vazios e as comissões das CPIs contavam apenas com a presença dos seus relatores.
O Congresso sequer tenta disfarçar suas contradições, como a absolvição do deputado Romeu Queiroz, do PTB, cuja cassação o Conselho de Ética aprovara. Levaram o deputado à absolvição, conforme ele próprio se jactou, 50 votos de petistas. Para cassar José Dirceu bastaram ao plenário suposições, evidências e hipóteses. Sem querer defender o líder do campo majoritário do PT, o caso Queiroz foi bem mais cabeludo. Este recebeu confessos R$ 350 mil do valerioduto, foi apanhá-los pessoalmente no Banco Rural, segundo o próprio, para “financiar campanhas petebistas”. Houve até um dinheiro depositado “equivocadamente” na sua conta. Havia provas materiais e motivos políticos para cassá-lo por falta de decoro e sem-vergonhice. No entanto safou-se devido ao bom trânsito que tem junto à Câmara. Claro está que existe um “acordão” para livrar a grande maioria dos acusados pelo Conselho de Ética, da cassação dos seus mandatos. O espírito corporativista chega a tal ponto que os deputados nem se importam mais com o possível acirramento da opinião pública. Ouvi de um professor de História, outro dia, que “informação demais desinforma”. Provavelmente é o que está acontecendo com a população brasileira, anestesiada de tanto ler e ouvir sobre as CPIs e os infindáveis depoimentos.Ninguém mais sabe em que ponto as coisas estão. Com a proximidade dos feriados de Natal e Ano Novo, quando os espíritos estão desarmados e, principalmente, desprevenidos, a bandalha se aproveita. Sabe que pode abusar da coisa pública (res publica) sem cair em desgraça junto aos eleitores. Quando estes acordarem novas absolvições terão sido confirmadas. Até a próxima eleição haverá tempo suficiente para que todos esqueçam do que aconteceu.
Enquanto isso, Lula e seu amigo Chaves, presidente da Venezuela, culpam a imprensa daqui e de lá por tantas denuncias nunca provadas. Mensalões, caixa 2, dinheiro não-contabilizado, dólares na cueca, contratos milionários de publicidade, depósitos no exterior, prejuízos dos fundos de pensão em aplicações financeiras... Tudo obra da imaginação fértil dos jornalistas deste País, inconformados com a ascensão de Lula, o Metalúrgico, à presidência da República. Vamos cuidar da nossa santa e merecida ceia natalina. A deles está posta há muito tempo.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC