Geral

Culturas distantes ainda surpreendem apesar de tecnologia

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 3 min

Apesar da tecnologia característica do século 21 aproximar culturas e mundos distantes, o olhar individual ainda é insubstituível. Porta de entrada para surpresas, ele tem a prerrogativa de desvendar grandiosidades ou detalhes, vezes corriqueiros, vezes exóticos. O foco, porém, pode tanto se direcionar para fora quanto para dentro de Bauru.

R$ 300,00, por exemplo, bastaram para transportar a cearense Terezinha Joca Pereira de Araújo, 62 anos, a um mundo jamais visto por ela nem na televisão. O aparelho, aliás, é considerado pela aposentada como monótono, difícil de acompanhar. Diferente, o vocabulário de novelas e telejornais está entre as novidades reveladas por Bauru, cidade onde permanecerá por um mês.

Acostumada a caminhar uma hora e meia a pé pelo sertão para só então embarcar num pau-de-arara e seguir para Canindé (a 144 quilômetros de Fortaleza), Terezinha percorreu quase três mil quilômetros até desembarcar por aqui. O município, eleito pelo filho para melhorar de vida, atualmente também acolhe as netas gêmeas. Além de conhecê-las, descobriu ainda uma modernidade décadas distantes do sítio onde mora, desprovido de energia elétrica.

Ela já tinha ouvido falar, por exemplo, em máquina de lavar roupa, ferro a vapor, viadutos, escada rolante e shopping. Mas tudo isso, só viu com os próprios olhos há uma semana. “Aqui tem prédio grande, muito movimento. Parece dia de festa em Canindé (onde em setembro os devotos de São Francisco seguem em romaria). Juntei dinheiro três anos (para a viagem). Se tivesse condições, mandaria todas as minhas filhas para cá”, afirma.

O esforço seria grande para quem ganha salário mínimo e sobrevive com a produção de culturas como milho, banana, feijão e mandioca. Terezinha é matriarca de uma família de dois homens, seis mulheres, 18 netos e três bisnetos. O filho mais novo, Edivam Joca Araújo, hoje com 28 anos, ganhou sozinha, em casa. Foi ele quem apresentou à mãe um prato agora apontado por ela como predileto: a pizza.

Meître, foi na casa dele que ela aprendeu a prática trivial de pressionar uma válvula para dar descarga. No sertão, até fossa é privilégio. “Não tem em muitas casas. Usam o mato. Em casa tem (privada). É tudo muito asseadinho”, conta.

Com o cabelo impecável e as unhas bem feitas, toma banho com canecas e lava roupa num açude. Leva o serviço doméstico acompanhada apenas pelo rádio. É por meio dele que recebe recado dos filhos.

Moradores de Canindé, eles aproveitam o programa das 18 horas para dar notícia, prática comum na região. Depois, no máximo às 19h30 se recolhe, sempre balizada pelo nascer e pôr do sol. “Cheguei aqui fiquei perdida. Perguntei (os pontos cardeais). A vida que a gente leva lá é muito sofrida. É injusto (tanto conforto de lado e tantos sacrifícios de outro)”, comenta. Depois, interrompe a conversa, baixa a cabeça e chora ao admitir a dificuldade em voltar para a vida de privações, no Ceará.

Canindé

O município de Canindé tem apenas 68 mil habitantes, de acordo com o censo de 1999. No entanto, nem nove mil dispõem de energia elétrica, informa o site www.ceara.com.br.

Crianças e adolescentes da cidade freqüentam apenas duas escolas. Terezinha, porém, nunca freqüentou os bancos escolares. Não aprendeu a ler ou escrever.

Comentários

Comentários