Articulistas

Imagens do novo século...


| Tempo de leitura: 3 min

A televisão, hoje, mostra o mundo ao vivo e a cores. Cenas do planeta desfilam sob nosso olhar e atiçam a sensibilidade e a inteligência. Fatos dispersos se sucedem sem nexo e inexplicáveis para a imensa maioria da população. Imagens fragmentadas e incompreensíveis do mundo em que vivemos. Planeta de imensos contrastes econômicos e sociais. De um lado, o desenvolvimento do saber, da ciência, dos avanços tecnológicos e da riqueza. De outro, o contraste da pobreza, da ignorância e da miséria da grande maioria da humanidade.

Da África, chegam imagens de milhões de negros à morte, ou de fome ou de AIDS, amontoados em cabanas infectas. Conflitos religiosos e políticos de extrema violência e selvageria por toda parte do continente sofrido e marginalizado que vive sem futuro. Da Ásia, imagens da devastação do imenso tsunami, com milhares de mortos, mostram o horror da absoluta falta de recursos financeiros e técnicos para prevenção de catástrofes naturais. Do oriente médio, a barbárie cometida sob o comando de americanos e ingleses sob o pretexto de impor regimes democráticos a países islâmicos e aplacar a violência de ditaduras confessionais e cruéis, ao lado da ânsia das grandes corporações pelo controle das fontes de energia. Imagens de remotos países...

Dos USA, as imagens do furacão Katrina arrasando New Orleans e, para surpresa do mundo, imagens de milhares de pobres, quase sempre negros, desamparados na cidade alagada. Da Europa, conflitos com imigrantes nas periferias das mais ricas cidades. Da França, assistimos basbaques aos tumultos na grande Paris e em todas as principais cidades das províncias. Jovens franceses, filhos de imigrantes, explodem em inconseqüentes e violentos quebra-quebras, com milhares de carros queimados, em protesto contra a exclusão social, a falta de empregos e de futuro.

Da nossa América Latina, conflitos políticos em todos países. Um menu variado: piqueteiros na Plaza de Mayo em ruidosas manifestações por empregos na Argentina; índios e cocaleiros derrubando e elegendo presidentes na Bolívia; guerrilheiros colombianos, em alianças com o narcotráfico, há dezenas de anos, sacolejando os governos. As instituições democráticas latino-americanas em permanentes abalos, decorrentes dos estreitos limites do desenvolvimento econômico e social. Do nosso Brasil, nem é preciso insistir, as imagens cotidianas de conflitos sangrentos entre quadrilhas e bandos de manos nas periferias de nossas cidades, sempre com envolvimento de policiais que multiplicam as mortes. Um terço da população na linha da miséria. Pululam imagens de desabusada riqueza em contraste com a pobreza e a miséria absolutas.

Em meados do século passado, conceituava-se o subdesenvolvimento. Alguns pesavam poder estabelecer as etapas históricas percorridas pelos países desenvolvidos para serem reproduzidas nos países subdesenvolvidos. Era a época do sucesso das grandes estratégias de desenvolvimento para as nações da periferia do sistema capitalista. Nações, com mobilização de forças políticas e sociais, poderiam percorrer os caminhos planejados racionalmente em direção ao desenvolvimento, produzindo a redenção econômica e social. O terceiro e o segundo mundo tinham esperanças de chegar ao primeiro mundo. Outros, mais céticos, punham ênfase nos mecanismos da dominação e nas amarras da concentração do saber e da riqueza nos países desenvolvidos.

As esperanças cederam lugar à inexorável dinâmica da acumulação capitalista em escala internacional. A miséria é recriada a cada momento pela globalização, que esmaga por todo os cantos as esperanças vãs... As lideranças políticas nacionais, tanto do governo petista quanto das oposições, são torturadas pelas contradições do novo século. Difícil, muito difícil, construir um projeto de futuro, nos quadros da dinâmica do capitalismo contemporâneo...

O autor, Ulysses Guariba, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

Comentários

Comentários