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Domingo de Natal não terá feira

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 3 min

O peru, típico na ceia de Natal, é um prenúncio. O dia 25 de dezembro desbancou outra tradição: a feira de domingo. Sem ela, hoje o corriqueiro “chorinho” ficará na saudade. Também não haverá reencontros, bate-papo, discussões sobre o rumo da política municipal, muito menos o som ambiente do Zé do Teclado.

Garantia de tempero para o domingo, o zunzunzum das barracas foi antecipado para ontem. “Será um domingo estranho, esquisito mesmo”, diz Marcelo Thomaz Prado, morador da rua Gustavo Maciel. Há sete anos habituado com os feirantes, “confere o obituário” da cidade ao colocar os pés para fora de casa. “Só assim para a gente saber quem morreu”, admite.

Se deixou escapar a oportunidade ontem, Prado também ficará sem ouvir a frase vez por outra pronunciada no grito por Dudu Ranieri.

“Ó a laranja mais doce e mais barata!”. No clima, o empresário não economiza na voz para ajudar um feirante amigo. Pudera, os 20 anos de caminhada barraca por barraca lhe renderam até banquinho cativo em algumas delas. Com artrose nos joelhos, ele anda duas quadras e pára num rápido descanso.

Quando falta, não passa despercebido. “Ele não veio três semanas. Reparei. Na feira, as pessoas se encontram, conversam, se entendem. Eu fico ansioso para chegar logo. É um lugar aberto, para todos”, diz o feirante Décio João Ribeiro. Na opinião dele, a feira pode ser comparada ao antigo fórum romano, onde se pode filosofar - mesmo que seja contando piada em rodinhas.

Point

Mas point mesmo tem endereço certo. Claro, a barraca do pastel. Além das tradicionais trombadas amigas, o ambiente é propício para paqueras. Chama atenção até mesmo de quem restringiu frituras do cardápio e conhece gerações de feirantes. É o caso do ex-prefeito Nilson Costa, que reza a tradição de andar pelas barracas há cerca de 40 anos.

“É inerente aos usos e costumes do brasileiro, principalmente numa cidade não muito grande”, comenta.

Arraigado ao dia a dia de parte dos bauruenses, o costume é capaz, inclusive, de tirar dona Amélia de Oliveira Maia de dentro de casa. Reservada, só sai quando tem compromissos a cumprir. Mesmo assim, conseguiu manter por 40 anos uma “amizade domingueira” na feira.

O contato começou muito antes das barracas serem transferidas para a rua Silva Jardim, em frente à residência dela.

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Abacaxi descascado

Com paciência de psicólogo, feirantes antigos já estão escolados em descascar o “abacaxi” alheio. Não são raros os clientes que, pelo tempo de convívio e a confiança construída, os procuram para contar problemas ou pedir conselhos.

“Tem gente que chora mesmo. Nós também nos emocionamos com histórias de família. Tem parente que encontra parente depois de 30 anos”, conta Moisés Bastos, presidente da Associação de Feirantes. Não é à toa que ele criou o termo “feira-terapia”. A expressão é respaldada pela cliente Neiva Maria Vendramini. Para ela, é um elixir apreciar as flores vendidas nas barracas. A fidelidade foi reconhecida até pelo acaso.

Neiva participou da campanha da associação dos feirantes, teve o nome sorteado e ganhou uma motocicleta. Já Marcelo Pereira da Silva não teve a mesma sorte. Também não é freqüentador contumaz. Mesmo assim, por companheirismo, já ajudou feirantes a carregar caixas e desmontar barracas. Décadas atrás, Roberto Bil Alves Barbosa fez algo semelhante.

Apaixonado por feiras, aos 10 anos trabalhou numa delas com vizinhos. Atualmente, sempre que pode, peregrina por todas elas. “Tem de tudo. É um caleidoscópio”, conclui.

• Serviço

As feiras livres que acontecem aos domingos nos bairros Jardim Bela Vista, Núcleo Gasparini, Beija-Flor e na rua Gustavo Maciel também serão antecipadas para o próximo sábado, devido ao feriado de Ano Novo.

O horário de funcionamento será das 14h às 18h, nos mesmos endereços, informa a assessoria de imprensa da prefeitura. Somente a feira da rua Gustavo Maciel terá sua extensão alterada, sendo realizada em apenas duas quadras, entre as ruas Júlio Prestes e Presidente Kennedy.

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