São Paulo - O que deveria ser um formigueiro humano mais parecia uma rua qualquer de comércio. Ao contrário do que um sábado véspera de Natal poderia fazer supor, a rua 25 de Março (centro de São Paulo) não teve aperto nem empurra-empurra no início da manhã de ontem. A bomba caseira que explodiu anteontem no local afastou boa parte dos consumidores.
Os passos normalmente apressados de quem vai de loja em loja em busca de ofertas tornaram-se ainda mais velozes. “Vou embora rápido. Podem fazer aquilo de novo”, disse a vendedora Rose Dantas de Matos, 39 anos. “Nem olhei as lojas direito.” A operadora de telemarketing Luciene Rodrigues da Silva, 35 anos, também apertou o passo. Ela chegou às 7h no local e, perto das 9h, já se preparava para ir embora com suas compras.
Para o camelô Renato, 47 anos, a véspera de Natal será um dia de poucas vendas. “O pessoal está com medo. Acho que não tiro nada hoje”, afirmou ele, que comercializava munhequeiras em frente ao local da explosão. Policiamento Além do movimento considerado baixo para um dos maiores centros de comércio popular da cidade, o “rapa” também frustrou os planos dos ambulantes. Exatamente às 8h30, uma rápida movimentação coletiva ocultou o mar de mercadorias que eram expostas nas calçadas.
Com a chegada da Guarda Civil Metropolitana (GCM) à 25 de Março, os ambulantes se “disfarçaram” de consumidores. “Os camelôs estão revoltados. O “rapa” (a GCM) não deixa ninguém trabalhar. Você quer comprar uma roupinha nova, dar do bom e do melhor para o seu filho, pôr comida em casa, mas assim é difícil’’, queixava-se o camelô Ielton, 17 anos, um ano e dois meses de vendas na “25”.
Com a mercadoria (brinquedos conhecidos como “bateu, colou”) em um saco preto carregado nas costas, ele já havia perdido as esperanças de faturar neste sábado. “Queria pelo menos uns R$ 200,00 para fazer a ceia e dar uma roupa para a minha mãe, mas acho que hoje não ‘tiro’ nem o da passagem.”
A GCM teria dobrado seu efetivo na região, mas não divulgou números. Segundo o inspetor Marco Antônio Bittencourt, da Divisão de Escolta e Apoio da GCM, hoje o policiamento será estendido até as 19h. “Na medida do possível, estaremos reforçando nosso trabalho”, afirmou. “A estratégia é ficar sempre por perto, principalmente nas esquinas.”
Empurrada por um GCM que apreendia a mercadoria de um camelô, Luciane registrou o clima de apreensão no local. Para ela, o policiamento não dá exatamente sensação de segurança. “Pelo contrário. Os guardas até vieram em cima de nós agora”, disse ela, que estava na companhia do marido, o motorista Ronaldo Carvalho, 39 anos.
Tranqüila, a dona-de-casa Zilda Souza, 50, não se importava com a possibilidade de uma nova explosão e com a movimentação atípica de guardas. “Não fiquei com medo, não. Acho que não vai acontecer de novo’’, afirmou, carregando uma sacola com brinquedos.
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Vítima dá à luz
São Paulo - Uma das vítimas da explosão de uma bomba caseira ocorrida na tarde de anteontem na rua 25 de Março, Mônica Coutinho dos Santos, 19 anos, deu à luz um menino na madrugada de ontem, véspera de Natal. Mãe e bebê passam bem. Outro filho dela, de 2 anos, também foi ferido na explosão.
De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, 16 pessoas ficaram feridas. Porém, apenas 12 delas foram identificadas pela Polícia Civil até agora. Somente uma das vítimas corre risco de morrer. É a garçonete Mona Lisa Fagundes do Nascimento, 21 anos, que sofreu traumatismo craniano. Ela mora no Guarujá, e estava fazendo compras.
“Estávamos andando na calçada e, de repente, caímos com a explosão”, relata o namorado dela, Marcílio Rozeno da Silva, 25 anos, que ficou com a roupa cheia de sangue. “Quando olhei para o lado, vi que ela estava desmaiada, com sangue escorrendo pelo nariz.”
O barulho da explosão levou pânico às cerca de 100 mil pessoas que circulavam pela 25 de Março. Uma adolescente de 15 anos que fugia do tumulto foi atropelada por um carro e fraturou a perna. Os outros feridos localizados pela Polícia Civil têm entre 17 e 34 anos.
Folhapress