Cultura

Polêmicas ganham leitores

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 4 min

O polêmico caiu no gosto dos leitores em 2005. Prova disso foi o surpreendente sucesso de “O Doce Veneno do Escorpião”, escrito pela ex-garota de programa Bruna Surfistinha, que teve o conteúdo de seu blog na Internet, repleto de detalhes sexuais picantes, transformado em livro. Com enfoque bastante diferente, mas não menos provocador, o “Código da Vinci”, de Dan Brown, permaneceu durante todo o ano na lista dos dez livros mais vendidos (veja a lista abaixo). A obra mistura ficção e realidade e bate de frente com a Igreja ao revelar um suposto romance entre Jesus Cristo e Maria Madalena, além de desvendar uma trama de conspirações e mentiras envolvendo organizações católicas.

Na esteira do sucesso, outras obras que abordam a religiosidade e também lidam com problemas interiores do ser humano atraíram a atenção do público e provocaram um estouro nas vendas das livrarias de Bauru e do País. Exemplos desse fenômeno são “O Zahir”, de Paulo Coelho e “Jesus, o Maior Psicólogo que Já Existiu”, de Mark Baker, que venderam acima do esperado. Sorte das editoras, que enxergaram esse novo filão do mercado, assim como nos livros de auto-ajuda e negócios, e aumentaram a procura dos brasileiros - normalmente conhecidos pela falta de hábito de leitura.

Outro formato que tem sido sucesso nacional é o de trivialidades. Neste gênero, pode-se citar o “Almanaque Anos 80”, de Luiz André Alzer e Mariana Claudino, que narra algumas curiosidades da década. A obra está há quase um ano na lista dos dez mais vendidos da “Folha de S.Paulo” (não-ficção) e se transformou recentemente em jogo.

Desvendando o enigma

Jair José Marangoni, gerente de uma livraria de Bauru, acredita que a busca por esses títulos reflete a desilusão vivida pelo homem contemporâneo. “Este mundo globalizado tem tornado o ser humano muito individualista e, na minha opinião, isso faz com ele que sinta um vazio. Os livros são uma forma de ocupar este espaço”, analisa.

Já o professor do curso de jornalismo da Universidade Estadual Paulista (Unesp) João Batista Chamadoira pensa que a boa colocação no mercado desses livros deve-se ao marketing editorial. “O que a mídia divulga, independentemente da qualidade, geralmente acaba se tornando um best seller. Eu desconfio dos livros que estão na moda, pois eles tendem a ser superficiais”. Mas o professor ressalta que qualquer tipo de leitura é válida. “Ler não faz mal a ninguém. Por mais que o conteúdo não seja bom, o leitor está trabalhando a linguagem. Mas penso que, se a mídia desse mais espaço a outras obras, o gosto do público seria outro”, reitera.

A mesma opinião tem Nilo Sérgio Alves Júnior, gerente de duas livrarias de Bauru, que se surpreendeu com a saída estrondosa de “O Doce Veneno do Escorpião”. “Infelizmente o mercado literário não tem muito espaço na mídia e, quando tem, torna-se um estouro de venda. Como aconteceu com esta garota (Bruna Surfistinha), que participou até do programa do Jô Soares”, aponta.

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Garantidos

Enquanto alguns escritores repentinamente brilham no cenário literário, outros resplandecem ainda mais a cada publicação. Neste ano, a febre internacional pelos livros da escritora J.K. Rowling fez com que milhares de pessoas corressem às livrarias para adquirir o novo exemplar da saga literária do jovem bruxo, “Harry Potter e o Enigma do Príncipe”. A venda das cópias importadas, em inglês, já surpreendeu os lojistas, e com apenas um mês nas prateleiras, a edição nacional tornou-se sucesso e entrou em todas as listas de mais procurados.

Em proporções bem menores, o novo livro do escritor colombiano Gabriel García Márquez, Prêmio Nobel de Literatura em 1982, também foi requisitado por muitos leitores. Fato que rendeu ao autor presença constante nas listas dos dez mais vendidos, com a obra “Memórias de Minhas Putas Tristes”. O livro revela a história de um velho jornalista que decide comemorar seus 90 anos na companhia de uma jovem virgem. E mesmo a linguagem mais complexa do escritor português José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura em 98, não afugentou os leitores. “As Intermitências da Morte”, novo livro do autor que acabou de ser lançado no País, já entrou na lista dos mais vendidos do mês e promete manter-se no topo por muito tempo. Na obra, Saramago disseca, com uma narrativa singular, a única certeza que todos os homens têm na vida.

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