Preparar ceia, trocar presentes, visitar amigos e cumprir rituais não são os únicos hábitos típicos de final de ano. Nesta época, também aumenta a presença de crianças pedindo esmolas nas esquinas de Bauru. Para elas, os endereços, principalmente os mais disputados, são fonte de renda para a família e contornam a ausência do “Papai Noel”.
Com um carrinho de brinquedo conquistado nas ruas, um garoto de 5 anos dividia seu tempo ontem à tarde entre rápidas brincadeiras e a peregrinação de carro em carro. A frase “tia, me dá uma moeda” era disparada não só quando o semáforo fechava, mas também na direção de quem caminhava pela calçada, no cruzamento da avenida Getúlio Vargas com a rua Amadeu Sangiovani.
A espontaneidade inerente à infância tornou-se em aliada. Ele é recordista em arrecadação na comparação com os dois irmãos, de 7 e 12 anos. Os três levam, diariamente, entre R$ 20,00 e R$ 30,00 para casa, situada na Vila Industrial. O trio adotou a rotina nas férias para ajudar tanto o pai que faz bicos de servente, quanto a mãe que cuida das irmãs mais novas de 3 e 1 ano de idade.
O casal não presenteou nenhum dos cinco filhos no Natal. Os brinquedos que receberam foram frutos das esquinas, de onde também chegam doces. As guloseimas, parte das vezes, substituem o almoço. Ontem foi um dia destes. Até às 15 horas, balas e chocolates haviam sido a única alimentação dos três garotos, cujo dia-a-dia não é exceção. Outras crianças “esparramadas” pela cidade levam a mesma vida.
Confirmação
A presença mais freqüente delas é confirmada pela Polícia Militar (PM), Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente e Conselho Tutelar. Os órgãos, no entanto, não dispõem de números que indiquem quantos são ao todo.
“Não dá para precisar porque às vezes recebemos várias denúncias, mas sobre a mesma criança. Durante o dia, elas migram. Vão do Centro para Altos da Cidade e de lá para a (avenida) Nações Unidas, por exemplo”, diz a conselheira tutelar, Janaina de Santo.
O Conselho Tutelar analisa a proposta feita pela PM de realizar uma operação conjunta, informa o comandante da Base Comunitária de Segurança Sul, tenente João da Costa Duarte. De acordo com ele, a atribuição de retirar crianças carentes da rua não é da polícia, cuja responsabilidade se atém aos casos de ato infracional.
Para evitar problemas, a polícia sugeriu a parceria na última reunião do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) Sul, realizada no dia 14. “Estamos aguardando uma posição. A PM está à disposição. Quando encontramos criança em situação de risco, acionamos o Conselho Tutelar”, acrescenta o comandante.
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Crítica
A primeira abordagem das crianças que aproveitam o final do ano para pedir esmola é feita pelo Conselho Tutelar, órgão alvo de críticas. Duas fontes que pediram para ter o nome preservado se queixaram da morosidade no atendimento prestado pelo órgão. Uma delas atribui a precarização do serviço ao final da gestão das quatro conselheiras. Outras cinco assumem a função no início do ano.
A avaliação dos dois munícipes é contestada pela conselheira tutelar Janaiana de Santo, para quem eventuais atrasos foram decorrentes de uma sucessão de problemas. Dentre eles, estão as duas únicas viaturas utilizadas pelo órgão. Uma delas quebrou duas vezes recentemente. Ela e mais três conselheiras dividem o plantão da manhã, tarde e noite.
“Nós éramos em cinco. Uma pediu exoneração em outubro. Já cansamos de solicitar um novo conselho tutelar”, diz. A necessidade será reavaliada pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e Adolescente, que responde pelo Conselho Tutelar e tem ciência de queixas da mesma natureza.