Bairros

No Redentor, cemitério é campo para soltar pipas

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 3 min

O colorido de pipas, vez por outra, consegue enterrar o clima melancólico do cemitério do Jardim Redentor. O local é ponto de encontro de crianças do bairro, onde equipamentos de esporte e lazer são escassos ou estão em situação precária. Juntos, os meninos brincam entre lápides e “observam” comportamentos dos mais inusitados.

Geralmente, os flagrantes ocorrem sob o sol ameno e em dia de vento bom, quando as pipas voam mais longe. “Já vi gente cortando cabeça de galinha e o pulso”, conta um deles. O outro, mais interpretativo, garante que o cemitério é freqüentado por “roqueiros que fazem pacto com o diabo”.

A história, contatada com detalhes de ficção, não mete medo em ninguém. Pelo contrário. É contada às gargalhadas, assim como outra referente ao crânio encontrado pelos caminhos do cemitério. “Tentamos jogar nas meninas. Daí chamamos o coveiro. Ele teve de enterrar de novo”, relata outro membro do grupo, formado por garotos com idades entre 11 e 14 anos.

Túmulos

A maioria deles admite já ter se machucado ao correr sobre os túmulos, que cedem. “Afundei e me ralei inteiro”, diz o mais velho. A experiência foi vivenciada também pelo mais novo, apesar das orientações da família. O “bando” todo recebe instruções para não brincar no cemitério, “lugar de respeito”. Adotam o ponto de encontro à revelia dos pais e sob a reprovação da administração do cemitério.

“A gente sabe que eles não entram para destruir, mas ficam pulando (sobre as lápides) e quebram. É uma placa de cimento. Já brigamos muito”, conta Celso Rubens Chermont, administrador do cemitério. O que mais o preocupa, no entanto, é a presença de jovens mais velhos, que utilizam o local para fazer uso de entorpecente e praticar atos de vandalismo.

A circulação desse grupo é flagrada com freqüência pelas próprias crianças, situação que traz preocupação para dentro de casa. “A gente tem medo que eles se envolvam com essa gente. Já o proibi de ir ao cemitério. Cheguei a dar um carrerão nele lá dentro, mas é difícil controlar criança e olha que sou um pai das antigas. Fico no pé mesmo”, informa Argemiro Henrique da Silva, pai de um dos garotos.

Precariedade

Apesar da desobediência do filho, ele pondera que o bairro favorece as brincadeiras no cemitério. Critica o estado do centro comunitário, que estaria desabando, e o abandono das praças. Uma delas, situada ao lado do cemitério, está tomada por mato alto, constatou a reportagem. Mesmo assim, volta e meia, a Polícia Militar (PM) é acionada para tirar as crianças de lá.

“Quando nos comunicam, os orientamos que ali não é local para brincadeira”, informa o cabo da Base Comunitária Sudeste, Paulo César Deganutti. Ele explica que o procedimento é o mesmo quando os jovens são flagrados soltando pipa com cerol (mistura de vidro moído com cola).

Neste caso, os pais também são orientados. Mas se houver reincidência, os garotos correm o risco de serem levados à Delegacia de Infância e Juventude (Diju). Os entrevistados de ontem negaram a utilização do cortante.

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Pega-pega

Brincar de pega-pega entre os 4.500 túmulos do Cemitério do Jardim Redentor, onde estão sepultados cerca de 29 mil corpos, é outra diversão do grupo localizado ontem pela reportagem. Mas o espaço, de aproximadamente seis mil metros quadrados, não é o único equipamento de lazer do bairro utilizado pelos meninos consultados.

Eles dizem que também freqüentam a creche do Jardim Redentor para jogar bola, além de outro campinho de futebol (cujo estado é bem precário). Também aproveitam as atividades do programa do Escola da Família - realizado nos finais de semana nas escolas estaduais em época de aula - além das oferecidos pelo Serviço Social do Comércio (Sesc). Ontem a reportagem não contatou a Secretaria Municipal do Meio Ambiente, responsável pelas praças, por causa do ponto facultativo.

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