Salvações da música, retornos triunfais, tentativas de triunfo mal sucedidas e todo o resto que fica no meio-termo pop disso tudo. Entre as centenas de lançamentos da indústria fonográfica, 2005 viu um fenômeno de mão única e sem volta crescer assustadoramente - a popularização maciça da troca de arquivos musicais pela Internet, especialmente pela disseminação de MP3 players mais acessíveis do que o pioneiro iPod. Nesse cenário, com CDs originais a mais de R$ 35,00, quem tem acesso a um computador e boa conexão pôde ter contato rapidamente com tudo o que a música pop produziu de interessante, seja para ouvir em casa, queimar em um disquinho ou transferir para seu tocador digital.
Há algumas unanimidades nas listas das principais publicações de música, como o ainda-quase-desconhecido-no-Brasil rapper Kanye West, que teve seu “Late Registration” no topo das paradas americana e britânica, dividindo, disco a disco, com “The Emancipation of Mimi”, de Mariah Carey, o título de mais vendido do ano. Ele é o número 1 no Top 50 da revista “Rolling Stone” e ficou em quarto lugar para os leitores da “Blender”. No reino do soul e hip hop, também merecem destaque “The Cookbook”, de Missy Elliot, “Everything’s OK”, de Al Green, e o retorno de Stevie Wonder com o modesto “A Time to Love”.
Nas prateleiras de folk e jazz, o ano foi dos rapazes. O britânico Jamie Cullum superou discos anteriores em um caminho no qual seu piano funde-se com perfeição ao britpop em “Catching Tales”, enquanto “0”, de Damien Rice, mostrou como um trovador do século 21 deve ser, assim como o Kings of Convenience, com “Riot on an Empty Street”. Mais pop e com um lugar ao sol no Brasil, Jack Johnson ressalta que suas canções não são só praia e água fresca com “In Between Dreams”.
No cenário pop, o retrô foi o tom. O Gorillaz superou seu primeiro CD com “Demon Dayz”, “Guero”, de Beck, trouxe de volta a inspiração de “Odelay”, o LCD Soundsystem soltou um disco duplo, homônimo e genial, e o Black Eyed Peas conseguiu segurar a bandeira do bom descartável com “Monkey Bussiness”, que tem direito a sampler de “Misrilou”, de Dick Dale, a famosa música de abertura do filme “Pulp Fiction”, de Quentin Tarantino.
Contudo não teve para ninguém depois que “Confessions on a Dance Floor” chegou às lojas. Madonna tem a façanha de ser ícone de pelo menos duas gerações e impressionou ao abandonar experimentalismos dos últimos anos em nome de um disco que celebra sua carreira como artista de dance music. E enquanto a rainha se reinventou voltando às origens, o rei Michael Jackson perde definitivamente seu posto, em um ano de julgamento e exposição de sua tragédia pessoal, e ganha o título de “Perdedor do ano” dos leitores da revista “Blender”, com quase 50% dos votos. Nem mesmo a eleição de “Thriller” como o melhor videoclipe de todos os tempos conseguiu colocá-lo sob bons holofotes.
Yeah!
O roqueiro Bob Geldof reapareceu em 2005 com a organização do megafestival Live 8, que tomou dez cidades ao redor do mundo em nome do perdão da dívida dos países pobres. Mas o “Herói do ano”, eleito pelos leitores da “Blender”, foi mesmo Billie Joe, frontman do Green Day. O grupo lançou o surpreendente “American Idiot” em 2004 e soube elevar-se ao posto de um das maiores da atualidade, com shows lotados por todo o mundo e o CD/DVD ao vivo “Bullet in a Bible”, um dos melhores do ano. O Brasil que os aguarde, finalmente, em 2006.
Outros “velhinhos” que também conseguiram seu destaque foram Bruce Springsteen, com o bom “Devils and Dust”, e Paul McCartney. O ex-Beatle teve o disco “Chaos and Creation in the Backyard” elogiado como seu melhor e mais maduro trabalho em muitos anos. Os Rolling Stones, esses velhinhos de verdade, também souberam capitalizar seu sucesso e voltar os olhos do mundo ao seu “A Bigger Bang”, cuja turnê eles trazem à praia de Copacabana no dia 18 de fevereiro. Mesmo sendo apenas mais um trabalho dos Stones, com pouca inovação, o disco foi eleito como o segundo melhor do ano pela “Rolling Stone”.
A lista da revista “New Music Express” é menos eclética e traz novos e novíssimos nomes do rock. O melhor disco, na opinião dos jornalistas ingleses, foi “Silent Alarm”, do Bloc Party, seguido por “Funeral”, dos canadenses Arcade Fire - que vieram ao Brasil no TIM Festival -, e “You Could Have It So Much Better”, do Franz Ferdinand - esse, dos poucos álbuns que podem ser apreciados da primeira à última faixa e não se encontrar uma única música “mais ou menos”. Nessa categoria, podem entrar também “Don’t Believe the Truth”, grandioso retorno do Oasis depois do fraco “Heathen Chemistry”; “Lullabies to Paralize”, do Queens of the Stone Age; e “Get Behind Me Satan”, do White Stripes.
O Foo Fighters inovou ao dividir seu repertório de novas canções nos dois discos de “In Your Honor”, um mais pesado e outro praticamente acústico, ambos realmente fortes. Também foi a proposta do System of a Down, que colocou nas lojas, em menos de seis meses, “Mesmerize” e “Hypnotize”, álbuns complementares de uma banda que coordena sua trajetória nos passos da indústria porém sem se prender a rótulos.
Já o New Order conseguiu olhar para o mais interessante de seu passado e fazer um disco realmente digno, “Waiting for the Siren’s Call”, o melhor desde “Substance” (1987). O adorado Coldplay, por outro lado, não teve medo de repertir suas próprias fórmulas em “X&Y”. Melhor foi o Kaiser Chiefs, novatos no cenário britpop, que tirou de seu “Employment” uma das melhores músicas do ano, “I Predict a Riot”, essencial para perceber como o rock inglês sabe, às vezes, nem se levar tão a sério.
Para os leitores da “Blender”, no entanto, as melhores músicas de 2005 foram “Since U Been Gone”, de Kelly Clarkson, “Mr. Brightside”, do The Killers, e “Boulevard of Broken Dreams”, do Green Day. Confira mais músicas nacionais e internacionais recomendadas pelo JC Cultura no quadro ao lado.