Paris - A passagem para 2006 na França registrou 425 veículos incendiados, contra 333 carros queimados na mesma data do ano passado. Isso apesar do reforço na segurança e do estado de emergência ainda em vigor. O balanço do Ano Novo foi comemorado pela polícia, mas duramente criticado pela oposição francesa.
O incêndio de carros é uma forma de protesto disseminada há vários anos na França e também uma ocorrência usual na virada do ano. Em alguns bairros, dezenas de veículos são queimados em média por noite. Nos últimos anos, esse número tem subido para cerca de 300 no Réveillon. Mas a polícia redobrou a atenção ontem por causa das três semanas de distúrbios registradas entre outubro e novembro.
O estado de emergência decretado pelo governo durante os protestos ainda está em vigor, e aproximadamente 25 mil policiais trabalharam nas festividades. O chefe da polícia, Michel Gaudin, disse que não foram registrados incidentes graves nem ataques incendiários contra prédios. “Algumas pessoas estavam preocupadas com que o período de violência recomeçasse no Ano Novo”, disse. “Creio, felizmente, que não tenha sido o caso.”
A polícia deteve 362 pessoas durante as festividades, contra 272 um ano atrás. Vinte e sete policiais ficaram feridos em serviço - dos quais 15 durante um incidente perto da torre Eiffel, descrito apenas como um “distúrbio menor” pela polícia. O Partido Socialista, por outro lado, acusou o governo de tentar minimizar a violência do Ano Novo.
“Foi uma das noites de são Silvestre mais violentas dos últimos dez anos”, disse o porta voz do partido, Julien Dray. “Estamos longe do clima de paz que o ministro do Interior (o presidenciável Nicolas Sarkozy) tenta nos apresentar ontem.” “Apesar das ineficazes medidas de exceção, infelizmente, a calma e a tranqüilidade não foram restauradas, e violência urbana continua”, disse o socialista.
A queima de carros se tornou uma espécie de termômetro para medir os distúrbios na França, mas também houve registros de outros incidentes violentos. Em Toulouse (sul), um incêndio destruiu parcialmente uma escola. Em Nice, na Riviera Francesa, bombeiros foram recebidos a pedradas quando respondiam a um chamado anônimo.
Em La-Seine-sur-Mer, uma equipe de bombeiros também foi apedrejada. Já no subúrbio parisiense de Argenteuil, um pequeno incêndio atingiu um centro cultural.
O ano passado será lembrado pelos franceses pela onda de distúrbios iniciada no dia 27 de outubro nos subúrbios de Paris, depois que dois jovens que acreditavam estar sendo perseguidos pela polícia se esconderam em uma subestação de energia e morreram eletrocutados.
Os protestos se espalharam pelos empobrecidos subúrbios de todo o país, onde predominam imigrantes do norte e oeste africano e seus filhos, já nascidos na França. Na noite mais violenta, 1.408 veículos foram incendiados. O presidente francês, Jacques Chirac, falou sobre a violência durante seu pronunciamento de Ano Novo, transmitido pelas TVs.
Ele pediu que a sociedade lute contra o racismo e a falta de oportunidades para quem vive nas comunidades pobres da França - problemas que alimentam a frustração dos jovens. “A diversidade é parte de nossa história: é um recurso”, disse. Chirac também prometeu mais empenho contra a violência.