Cultura

Folia viva

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 3 min

A fé dos anciões se renova no sorriso das crianças que, com sua pouca idade, manuseiam os instrumentos, vestem o uniforme e dão continuidade à tradição de quase dez séculos de Folia de Reis. “Nosso povo está indo embora. Que Deus toque o coração dessas crianças para que o Grupo Folia de Reis de Bauru não acabe”. Este é o maior desejo do coordenador do grupo de foliões da cidade, Antônio Correia, que, com seus 65 anos, esforça-se há oito anos para manter viva a cultura, cuja magia poderá ser sentida amanhã, quando se comemora o Dia de Reis.

O sentimento que une os foliões não passou despercebido pela pequena Suelen Cristine Julião Nascimento, de 9 anos. “Quando vi minha avó com a bandeira nas mãos, percebi que tinha que dar uma força”. O primeiro passo foi iniciar as aulas de reco-reco com Correia. Depois de um tempo de estudo, Suelen juntou-se aos outros oito integrantes do grupo. “As crianças não devem ficar paradas em casa, é preciso procurar Deus”, diz emocionada. Além dela, o Folia de Reis ganhou força com a participação dos adolescentes Jeferson da Silva Costa Lima, 13 anos, que dá vida ao palhaço, e do violonista Lucas Julião Silva, de 12 anos.

Para o violonista e cantor Antônio Nascimento Lima, a Folia de Reis se fortalece na crença. “Tendo fé, tudo o que você pedir aos magos conseguirá. A minha vida não tem sentido sem essa tradição. É uma alegria imensa que todos sentem”, empolga-se. Lima lembra o caso de um garoto com problemas no coração que foi agraciado pelos Santos Reis. Para pagar a promessa, seu pai colou a foto do filho curado na bandeira dos foliões.

O maior empecilho enfrentado pelos foliões é a falta de transporte. Atualmente a Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (Semel) fornece uma perua para as apresentações do grupo. No entanto, para Correia, o apoio ainda é pequeno. “Cada integrante mora em um ponto da cidade e é muito difícil conseguirmos nos reunir”, lamenta.

O folião ainda tem planos de montar uma escola de Folia de Reis, que teria como objetivo ensinar crianças a tocar os instrumentos. “O projeto existe desde o ano passado, mas está parado na Secretaria Municipal de Cultura (SMC), aguardando recursos”. Além disso, o grupo pretende lançar seu quarto CD, com composições próprias.

Dia de Reis

Mesmo com manifestações cada vez mais esparsas, alguns lugares do Interior do Brasil ainda celebram a data, que marca a visita dos três Reis Magos ao Menino Jesus. O ritual na cidade começou em novembro deste ano e estendeu-se a 14 bairros de Bauru, além da cidade de Agudos. Todo domingo, o grupo visita a casa de um fiel, que abre suas portas e recepciona os foliões com café e comida. “Nossa fé vai abrindo o caminho com a bandeira que representa os Reis Magos e os presentes que deram ao Menino Jesus”, diz Correia.

Em todas as apresentações, os foliões vestem seu uniforme, cantam, tocam os instrumentos e levam a bandeira, cujo guardião é o palhaço. Os participantes fazem questão de manter suas vestimentas alinhadas e sempre que possível confeccionam novos vestuários com dinheiro do próprio bolso. “A gente se esforça, porque os Santos Reis não querem roupa feia. De feio, já basta a gente, né?”, brinca o coordenador.

Amanhã, o ciclo de peregrinação será fechado com a comemoração na casa de Correia, aberta à comunidade. Os preparativos para a grande festa já começaram. Na casa do anfitrião, 300 quilos de carne, um frango e uma leitoa anunciam a grandiosidade do encontro. Para reforçar o cardápio, cozinheiras vão preparar uma macarronada, além do tradicional bolo do Dia de Reis. “O portão de minha casa está aberta para quem quiser vir, assim como o coração dos Santos Reis”, coloca Correia, que aguarda para o dia cerca de 500 pessoas. A última festa, realizada no ano passado, contou com cerca de 200 participantes.

• Serviço

Festa do Grupo Folia de Reis de Bauru, amanhã às 12h, na rua Marcelo Mariuzo, 1-60, no Núcleo Bauru 16. O evento é aberto à comunidade.

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