“Estive algumas vezes em Cabreúva, a trabalho e, na última vez, peguei uma rodovia de Itu até Cabreúva, que margeia em toda sua extensão o rio Tietê. Que maravilha a mata existente naquela região. Árvores centenárias, trepadeiras, arbustos, samambaias silvestres encrustadas na pedra, aliadas ao traçado irregular da rodovia, por vezes me fez sentir cruzando as serras da Mata Atlântica com destino ao litoral. O ar pesado, pela umidade da floresta, raios de sol, atravessando as folhagens, desenhando formas no alfalto, transportam nossa alma para uma dimensão única de paz e contemplação. Fios de água aparecem vez ou outra, escorrendo, como um choro permanente da floresta, permeando por pedras e barrancos até sumir na terra ao lado do asfalto. Visão do lado direito de quem vem de Cabreuva para Itu. Já do lado esquerdo, o rio que foi a via da conquista bandeirante rumo ao interior paulista, que muita sede matou das intermináveis caravanas de tropeiros e retirantes, que deu peixe e sustento, jaz não agonizante, mas completamente morto. Sei leito carcomido e assoariado, pelo lodo barrento e putrefado, nem nas sua curvas e corredeiras barulhentas, consegue atrair qualquer olhar de quem por ali passa.
Os mirantes nos pontos mais largos, que outrora eram paradas obrigatórias, jazem abandonados lúgrubes, insonsos, como lápides mortuárias, testemunhas de dias de gloria do Tietê. Um quiosque para turistas tenta sobreviver, tendo à sua porta um caboclo sonolento e um cachorro largado, à espera de um milagre e da volta do movimento. Triste legado. O “Caudal Volumoso” em Tupi, ali está morto. A floresta tenta a todo custo abraçá-lo, tal qual uma mãe abraça um filho doente e, em ato de desespero, clama por sua saúde, invocando a Deus e os Santos, mas neste local ele não reage. Só muito longe dali o Tietê renasce. Não por sua própria força, mas por todos os outros rios que lhe afluem, injetando-lhe vida nova e esperança. Esperança, é o que resta para os moradores dali e para os visitantes de tão belo local, esperança de tudo voltar a ser como era.”
Eduardo Alves Rodrigues - RG 9.123.787