À pergunta que os repórteres da televisão faziam ao povo na passagem do ano, o desejo de cada um para o novo ano, as respostas se repetiam: saúde, paz, emprego, casa própria, um grande amor. Uma das entrevistadas respondeu diferente, direta, com duas palavras: mais honestidade. Pronto, a solução para todos os problemas encontra-se apenas e simplesmente na honestidade. Discordar quem há de? Acompanhando o raciocínio da moça, a lógica prevalece, contundentemente. Vamos por partes, considerando que a probidade e a decência são antagônicas à ganância, ao egoísmo, à corrupção e outras libertinagens.
Pois bem. Desejando presentear a esposa com um short, a vendedora apresentou o preço de 150 reais por uma peça confeccionada com menos de dois metros de tecido comum que, no centro atacadista de São Paulo, não deve custar mais de 30 reais; cobrando 400% a mais do seu preço de custo! O comerciante é honesto? Num supermercado, um produto com o preço em promoção, conforme a etiqueta; no caixa, registrado com valor sem o desconto anunciado. Faltou honestidade? A recepcionista do médico marcou a consulta para às 14 horas e a paciente foi atendida às 16 horas. Honesto fazê-la esperar 2 horas? Documentos roubados precisavam substituições. Para agilizar a emissão, o interessado, espremido, adoçou a mão do funcionário do governo com açúcar da marca “Real”.
Desonestidade? A infração no trânsito foi esquecida pela lei porque o seu representante recebeu um “real” sorriso do infrator. Honestos? Até na alegria do povo, na paixão brasileira, o futebol, a desonestidade se manifestou de maneira grosseira nas arbitragens! Se existisse, como a moça sonhou na televisão, mais honestidade, muita coisa ruim que aconteceu não teria acontecido. Exemplo maior de desonestidade que está abalando a estrutura do Brasil; a corrupção dos seus políticos de baixo nível; vilões com culpas provadas que ainda desfrutam dos benefícios concedidos pela famigerada imunidade parlamentar; que aguardam, de camarote, confiantes que não serão cassados no julgamento final pela quadrilha formada por companheiros impudentes da Assembléia. Para, em liberdade e com os mesmos direitos políticos, continuarem corruptores e corrompidos. Nada melhor do que as próximas eleições para a sociedade manifestar a sua indignação diante de tanta devassidão; votando contra a corrupção, contra a desonestidade que grassa e emporcalha a política brasileira; expurgando os candidatos corruptos aspirantes à reeleição e aos seus chefes que, cinicamente, afirmam que não sabiam de tanta corrupção; líderes de barro sem qualquer pudor declarando-se apunhalados pelas costas por traidores sem nomes. Com toda a certeza o punhal estava escondido numa cueca.
A mais honestidade desejada pela moça na televisão continuará sendo, neste ano, pelo menos até as eleições, triste utopia; seguirá animando a fé do brasileiro que caminha tropeçando na desesperança. A possibilidade de a moça ler este artigo é uma em um milhão. Mesmo assim, parabéns, moça, pelo seu desejo! A sua declaração é uma advertência, um alerta para que todos nós, consumidores e eleitores, a cada desonestidade que nos atinge, botar a boca no trombone e acusar o desonesto sem medos, sem nos acomodarmos na omissão; a nossa covardia é o incentivo para que a desonestidade cresça e uma afirmação de que pactuamos com ela. Que 2006 seja o “ano da mais honestidade”; na política, no comércio, na indústria, na família, no esporte, no trânsito, no calçadão, nas ruas e avenidas, no cumprimento das leis e, perdoem-me, até nas orações pessoais; que a honestidade seja revigorada pelas mulheres e pelos homens que serão escolhidos nas próximas eleições. Que o Brasil vivencie por meio do voto honesto os seus honestos e merecidos caminhos. E que a quadrilha que hoje assalta a Nação, que não foi presa e nunca será, seja enterrada na vala do esquecimento sem votos e sem missas. Que as suas caras sejam apagadas do retrato político brasileiro.
O autor, Munir Zalaf, é presidente da Academia Bauruense de Letras - ABL