O caro amigo Zanca, este gentleman que Bauru adotou, saiu em defesa dos usineiros de açúcar e a ele agradeço, desde logo, a didática aula sobre o funcionamento do “mercado de livre concorrência”, que eu, pobre bacharel em Direito, já tinha ouvido falar uma ou outra vez.
O que, porém, não consegui entender, pelo que me penitencio, é porque, num mercado em que não existe escassez de oferta e excesso de demanda - para um estoque de 4 bilhões de litros de álcool estima-se um consumo abaixo da metade disso - possa haver “pressões para aumento de preço”.
Por outro lado, como o Zanca bem sabe, por ser hábil administrador de empresas, a livre concorrência hoje, no setor em que atua, só existe entre os botequins na venda de cachaça em doses individuais. O resto é tudo cartelizado, a não ser que a respectiva associação de classe somente sirva para que os usineiros joguem “tranca” nos momentos de folga...
E o Zanca também sabe que o “laissez faire, laissez passez, le monde va pour lui même” já foi abandonado nos estertores do século XIX com a necessária intervenção do estado na economia para, por um lado, por freios aos excessos do mercado e, por outro, procurar resolver as questões sociais que o próprio capitalismo selvagem causava (e, como a besta voltou, está novamente causando).
E qual tem sido a postura do governo? Este, ou fecha os olhos para o problema ou faz o jogo “das forças de mercado”, quer dizer, ferro na boneca, ou melhor, no consumidor, já que as eleições estão aí e o segmento do consumo não tem como financiar nenhum candidato.
Quer exemplo, meu bom Zanca? Há alguns anos, para compensar os pobres produtores dos prejuízos que estavam tendo com as exportações de açúcar, então em baixa nos mercados internacionais, nós, os consumidores, tomamos no lombo um aumento de preço imposto pelo governo. Ora, até eu, que sou mais bobinho, gostaria de exercer uma atividade produtora em que os prejuízos são socializados, mas os lucros privatizados. Porém, se esta benesse divina me fosse concedida, eu jamais iria defender o “livre mercado”.
Por fim, perdoe-me Zanca, mas, pelo andar da carruagem, a ganância dos usineiros, que já acabou com o Proálcoool, também vai sepultar o Proflex. E “vade in pacem”.
Mario Candido de Avelar Fernandes - RG 5.235.421