Temos tudo para viver este 2006 mais sábios. Os últimos anos da nova fase política brasileira, especialmente 2005, nos deram boas lições. Agora, resta saber se aprendemos e, se for o caso, colocar em prática para o bem coletivo. Não sejamos tolos em reduzir o rico conhecimento adquirido numa prova de final do ano - as eleições.
A vida em sociedade é muito mais do que isso. Entra governo e sai governo e embora um mau administrador possa fazer grandes estragos, se não cuidarmos do nosso pão de cada dia, não há milagre possível. É preciso trabalho para conquistar nossas liberdades. Mas será que já não aprendemos o suficiente?
Aprendemos que a República era melhor que a Monarquia e que a melhor das ditaduras é sempre pior que a mais ruim das democracias. Vimos que congelar preços e confiscar poupança não dá certo. Privatizar ou estatizar é uma questão de boa administração e que ser presidente prejudica a memória. Enquanto um pede “Esqueçam o que eu escrevi” o outro repete “Eu não sei de nada”. Tivemos também bons exemplos do que é justo: para a indulgência com o filho do Rei é de bom tom libertar a pobre traficante moribunda.
E mais! Matar pais em casa, mendigos na praça e bichos no zoológico, como represália ao combate ao tráfico de animais silvestres, parece não dar cadeia. Por falar no assunto, quem sempre fez deste local bandeira política, descobriu: no xadrez não servem damascos. E se isso tudo pode enojar, precavenha-se: deixar de vacinar uma vaca neste País dá mais dor de cabeça do que manter um trabalhador escravo.
Aprendemos também que negociar em nome de Deus dá boa grana e ainda recebemos em “cash” e que as roupas de baixo não são um bom veículo de transporte. Para os pegos com a boca na botija, a imprensa é de direita e para os que ainda conservam um ranço civilizatório atrasado, os jornalistas é que são de esquerda. Ainda assim, valeu a pena! Descobrimos que a ética não tem dono, cor ou ideologia. Tem gente que tem e gente que não tem... e ponto. Os paladinos de ontem dizem que “não é bem assim” e os picaretas de sempre posam de bonzinhos querendo salvar a mocinha das garras do dragão. E assim, la nave vá.
O autor, Luís Victorelli, é jornalista e coordenador do Projeto ScienceNet de Ciência e Cidadania - e-mail: lvict@terra.com.br