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Além do lucro


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Em princípio todas as empresas são úteis à sociedade, porque produzem alguma coisa ou prestam algum serviço que as pessoas necessitam. Algumas empresas, entretanto, são nocivas à sociedade porque enganam as pessoas com produtos ou serviços de má qualidade; porque poluem o ar com gases tóxicos ou contribuem para o efeito estufa pela emanação excessiva de gás carbônico; porque despejam diretamente nos rios resíduos químicos ou de contaminação biológica, matando peixes e afetando o abastecimento das cidades; porque exploram o trabalho de seus empregados, inclusive de crianças, com horas excessivas e remuneração em desacordo com as mínimas exigências legais; porque devastam as matas e degradam o solo pela exploração ilegal e irracional de seus recursos; porque obtêm lucro ilegal, pela sonegação de impostos, enfim, são nocivas porque fazem alguma coisa que prejudica a sociedade.

Uma grande maioria, contudo, é apenas útil e não dá nenhuma contribuição adicional à sociedade. Apenas faz o seu trabalho direitinho, aufere seu lucro corretamente, não causa nenhum prejuízo mas também não proporciona nenhum benefício. Essa situação, entretanto, vem mudando porque um número crescente de empresas, por iniciativa própria ou por pressão externa, vem tomando consciência de sua responsabilidade social.

A responsabilidade social decorre de ser a empresa um ente social, uma unidade da sociedade. É uma pessoa coletiva (pessoa jurídica), que como o indivíduo (pessoa física) é sujeito de direitos e obrigações. Seu registro na Junta Comercial é como o registro civil que dá existência de cidadão à pessoa física. Mas ser cidadão não se resume a possuir o registro que garante o seu nascimento, a suja existência. É preciso que cumpra as suas obrigações com a sociedade que o reconhece como seu membro. Só assim manterá legitimados os seus direitos. Para que o lucro seja um direito legítimo é necessário que seja merecido, não só pelo trabalho que o produziu, mas porque foi apurado depois que a empresa cumpriu todas as suas obrigações perante a sociedade da qual é parte.

A responsabilidade social exige que a empresa cumpra as obrigações legais e faça alguma coisa a mais, retribuindo a oportunidade que a sociedade lhe dá de obter ganho para o seu sustento e aumento de seu patrimônio. Essa coisa a mais tanto pode ser algo a ser feito como algo a não ser feito. Algo a ser feito - começar pela própria casa, contribuindo para melhorar as condições de vida de seus empregados; contribuir para a educação ou saúde pública, amparando creches, escolas e unidades de saúde; recuperar áreas degradadas, adotar praças públicas etc. Algo a não ser feito são as coisas que trazem prejuízos, como as citadas acima.

Responsabilidade social é mais que distribuir cestas básicas e brinquedos no Natal. É mais do que fazer doações esporádicas. Ela deve ser parte da estratégia da empresa, constando do seu planejamento e do seu orçamento, definindo o que pretende fazer na área social e alocando os recursos, para no final fazer o balanço social, mostrando o que realmente fez. Só assim a responsabilidade social terá efeitos positivos – melhora a produtividade do pessoal e a imagem da empresa perante a sociedade, garantindo sucesso nos negócios e aumento dos lucros. Não é fazer caridade, é agir com inteligência para benefício próprio e da sociedade. Algumas empresas estão até preparando executivos especializados nessa área, valendo-se de cursos como o oferecido pelo Ceats (Centro de Empreendedorismo Social e Administração do Terceiro Setor) da FIA/USP.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru

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