Tribuna do Leitor

A pobreza nacional


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Ao longo do tempo, o monopólio da terra nas mãos de uns poucos e a ausência total da democratização do acesso e uso da terra foram empurrando milhões e milhões de pessoas para as cidades. Nesse tempo o Brasil era essencialmente rural. Só uma minoria vivia nas cidades. O campo, o rural, era o País. À medida que a população crescia, a terra, apesar de imensa, encolhia. Sobrava gente expulsa da terra. Assim se produziu a pobreza. Este foi o chamado desenvolvimento do Brasil: acumular terras, desterrar gente. Esse é um processo que ainda não terminou, mas que já mostrou todas as conseqüências.

Hoje, mais de 70% das pessoas vivem nas grandes cidades, se amontoam nas favelas, mocambos, alagados e tantos outros nomes que são dados à miséria. O urbano virou o espaço da maioria. As terras continuam com poucos donos. E quanta terra! As dezoito maiores propriedades rurais do País têm 18 milhões de hectares e representam o território de três países europeus juntos.

Os expulsos da terra vinham buscar novas oportunidades de trabalho, liberdade diante do senhor dos engenhos, das usinas, das grandes propriedades, dos coronéis, suas famílias, seus impérios, dos donos do mundo. Fugir também do trabalho duro, do sol, da violência e um trabalho sem futuro. Fugir da terra era ao mesmo tempo perder o pouco que se tinha, escapar da opressão, buscar a liberdade, lutar por novas oportunidades.

Fugir da terra era escapar da cerca e da violência de quem cerca e mata para um urbano que prometia a modernidade, onde se vislumbrava a possibilidade da cidadania. O sonho de uma trajetória do escravo para o cidadão, uma alforria econômica e política. afinal, os escravos ganharam a liberdade ao mesmo tempo que perdiam o acesso à terra. Deixavam de ser escravos para não ser nada...

Ao longo desse tempo, com quantos sonhos e esperanças não chegaram nas grandes cidades as levas de famílias que foram formando as nossas favelas? Estamos falando de uma migração que deslocou um terço de nossa população de norte a sul e de leste a oeste. E assim foram-se compondo a miséria urbana, a pobreza nacional, a riqueza das minorias, o corpo e a cara do Brasil.

Mas também a resistência, a sobrevivência, o boomerang. Favela e favelado, povo pobre, popular, liberto, atento e disponível para mudar. Quem é capaz de largar todas as referências, pegar a família, tomar um ônibus e desembarcar em São Paulo cheio de filhos e sem um tostão no bolso, é capaz de sobreviver em qualquer Saigon. Mas vem sem referências, está disponível. Pode votar em Lula, Fernando Henrique Cardoso, Geraldo Alckmin, Serra, Ciro Gomes ou Pedro Tobias... Pode votar e mudar. Pode aplaudir e jogar pedra, às vezes quase ao mesmo tempo.

No interior sempre votava no único senhor. Nas cidades vota em qualquer senhor ou escravo que se apresentar em rebelião ou protesto. Lula teve 31 milhões de votos e não era o senhor. Esse que chega não tem mais terras, não tem mais cercas, amarras, compromissos. Talvez não seja um cidadão, mas já não é mais escravo, é uma possibilidade.

Os prefeitos já não sabem o que fazer com sua própria população. Cercam as praças públicas. As autoridades não têm mais como garantir a segurança de todos. Escolhem a quem proteger e abandonam o resto à sua própria sorte. Os ricos fecham suas ruas, condomínios e bairros. Os pobres se submetem às gangues de narcotráfico que controlam pontos, as áreas, as favelas, os morros. O Brasil, como diria Cazuza, mostra sua própria cara nas cidades e vira um tremendo desafio.

Quem souber olhar as últimas ondas de nossa história poderá perceber que uma poderosa energia transformadora abre novos caminhos para nossa sociedade. Nessa onda está o drama, mas também a possibilidade de outro desfecho. Está o nó e a faca. O grito e o desafio. A morte, mas também a vida. No limite é que ocorrem os partos.

Já passamos muitas vezes do limite. A vida está com pressa de nascer. Tudo faz parte!... (João Álvares - Delegado Regional da Associação Paulista de Imprensa)

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