Por entre as pedras da mina um filete de água transparente, descia por sua face refulgindo ao sol. Com as mãos em concha, recolhi um pouco daquele milagre, saciei minha sede e banhei o meu rosto. A água e eu naquela imensidão verde sem nenhuma presença humana. Tentei, em vão, bloquear o fluxo; determinada, a água venceu-me e continuou o seu milagre fluindo a vida. Me pus a monologar com aquela poesia viva, tendo, como platéia, pássaros, borboletas e alguns animais de pequeno porte me desafiando. -Olá, Dona Água! Que bom te encontrar. Estava morrendo de sede! Obrigado por me servir. Por servir às pessoas e aos animais.
À terra e à semente. Ao pão nascido do trigo. À vida! Pena que te maltratam, que não te dão o valor que mereces. Esquecem que o Planeta Terra é formado por muita água e que 97,5% disponível na Terra é salgada; e 2,493% é doce, está nas geleiras e regiões subterrâneas de difícil acesso; e que somente 0,007% é encontrada nos rios, lagos e na atmosfera de fácil acesso para o consumo humano. Veja só minha cara: existe na terra só 0,007% para servir a mais de 6.500 bilhões de pessoas, com as suas atividades consumidoras e todos os seres vivos. A verdade é que usam e abusam da tua generosidade não te respeitando perante o inquietante risco de escassez; “diante à crescente demanda pelos recursos, vem preocupando autoridades no assunto, pela redução da disponibilidade de água no planeta.
O recurso natural de valor econômico, estratégico e social, indispensável à existência do homem e à manutenção dos ecossistemas do planeta, um bem da humanidade”. Pois é, minha querida fonte, nós somos teus irmãos: o corpo de um bebê é 90% água e o corpo de um adulto, é 70%; à semelhança do nosso corpo, o Planeta Terra tem a sua superfície coberta com 70% de água; nós nascemos numa bolha de água; no ventre materno vivemos nove meses dentro de uma bolsa com o liquido amniótico com as substâncias necessárias até nascermos para o mundo. Sabes minha Água que não sou nenhum estudioso sobre ti; sou apenas um observador, um leigo que se entristece com o tratamento que te dão; talvez esteja errado por te falar assim, irreverente, sem qualquer cerimônia; desculpa-me, sou apenas uma pessoa apaixonada que te sente lá no fundo da alma e te ama diante da tua infinita generosidade.
Entristeço-me ao ler que existem regiões neste mundo com mais de um bilhão de pessoas privadas de água salubre e 25 mil entre elas morrem diariamente devido à falta de recursos ou desrespeito pelas autoridades locais no tratamento que te é devido; diante dessa crueldade, me revolto quando vejo, no meu chão, na minha Pátria, com tanta fartura, como te esbanjam, te desrespeitam e te diminuem diante da vida sem perceberem que tu és a vida! Revolto-me quando te vejo violentada pelo lixo e sufocada pela poluição. Li, na internet, que “a poluição da água é conseqüência direta do crescimento demográfico, e depende do nível sócio-econômico-cultural de uma população e do seu estágio de desenvolvimento industrial e tecnológico. A poluição pode ser substancialmente reduzida através da implantação de um sistema de saneamento e tratamento eficiente”.
Veja bem: “pode ser reduzida” e essa redução não acontece com o equilíbrio necessário A cada mil metros cúbicos despoluídos quantos milhares são poluídos por minuto? Água! Saudade dos teus rios e lagos transparentes, dos teus peixes saudáveis, das águas correntes, lambaris e cascudos na peneira; do sol te saudando nas cores do crepúsculo. Saudade de ti livre dos galões que te aprisionam comercializando-te como mercadoria comum; prova de que estás escasseando em prejuízo da sobrevivência natural e saudável dos seres. Água! Saudade de matar a sede diretamente na torneira ou na mangueira de borracha nas mãos da minha mãe regando as plantas e acariciando a hortelã, tempero do seu gostoso quibe cru. Nó na garganta... “A saudade mata a gente...” Lágrimas nas faces, água no rosto chorando com a minha saudade...
Instituído pela assembléia Geral das Nações Unidas em 22 de fevereiro de 1993, o dia 22 de março de cada ano é o Dia Internacional das Águas. Quem se lembra ou comemora?
Guilherme Arantes, poeta da MPB, narrou a grandeza da água chamando a terra, até com lógica, de Planeta Água: “águas que nascem na fonte serena do mundo / águas que banham aldeias e matam a sede da população / Gotas de água da chuva, alegre arco-íris sobre a plantação / Terra, planeta água.../”
Água, milagre de Deus homem não respeita.
Munir Zalaf - RG 2.726.959