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O que temos a ver com a moda?


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Vivendo em tempos de “Fashion Week”, os brasileiros se deslumbram com o recém- descoberto mercado de moda no país. As notícias sobre coleções, modelos e estilistas estampam centenas de páginas diárias de mídia. Isso sem contar as inúmeras reportagens televisivas com entrevistas, comentários, clips e making-off de desfiles. Nesse panorama estético, diversas personalidades nacionais foram entrevistadas e estimuladas a comentar sobre a importância do fenômeno da moda para o nosso povo.

Quem acompanhou as análises, ouviu respostas brilhantes, o que tornou possível a retirada da casca de frivolidade que o assunto sempre vem revestido. Segundo especialistas da economia, a moda traz mais uma alternativa de empregos, além de fundar dezenas de profissões emergentes. Também foi ressaltado o aspecto sem precedentes da indústria, o que impulsiona a produção e o consumo, articulando um importante movimento na circulação das riquezas no país. Os antropólogos comemoram o novo horizonte de pesquisa, um vastíssimo campo de colheita de dados humanísticos. Afinal, através da lente da moda, é possível analisar inúmeros aspectos de uma cultura e sua contemporaneidade.

Já os psicanalistas apontam as conseqüências para a psique humana. Nesse item, há o perigo da estandardização, das pessoas se uniformizarem em demasia; mas há também a possibilidade de criar, escapando das tendências e ostentando um visual altamente pessoal, numa atitude corajosa de contestação. Tudo isso sem mencionar o fato de que a moda acaba por escancarar o interior de quem veste e aí é possível encontrar sinais de diversas características acerca da personalidade, seus conflitos e atributos peculiares. Os “fashionistas” e especialistas em etiqueta advertem: cuidado com os excessos e com as irreverências. Apesar das passarelas serem poderosíssimos mecanismos de inspiração, é preciso seguir regras para não ser mal interpretado e mal visto. A “vítima da moda” é um fato e todos nós estamos sujeitos a isso. Dizem os elegantes instrutores que há ocasião para tudo e os limites são bem delineados na sociedade em que vivemos. Ultrapassá-los significa perigo para a imagem, bem tão precioso hoje em dia. Em meio às inúmeras cabeças pensantes que trabalham para legitimar as razões da efervescência da moda no Brasil, eu me faço a mesma pergunta e proponho que você, leitor, também filosofe a respeito do assunto. O que eu e você temos a ver com a moda? Pensando a respeito, tiro minhas próprias conclusões, absolutamente femininas. Moda é uma forma escandalosa de vivenciar nossos sonhos mais íntimos e secretos. E quem não precisa de sonhos? Já disse o pensador oriental Osho que “o sonho é a matéria da qual a vida é feita”. Assim, admitindo ou não, vivemos a costurar nossos sonhos ou a escapar deles. Através da roupa que escolhemos, espelhamos nosso personagem íntimo diário, o papel que desejamos representar, a reação que queremos produzir em nosso público cotidiano.

Moda é um bom motivo para preocupar-nos conosco, para amar-nos mais e olharmos mais no espelho. Uma gostosa desculpa para medir a circunferência da nossa cintura, para tomar cuidado com os excessos à mesa e principalmente para cuidar da nossa saúde, já que pretendemos ter liberdade absoluta para escolher a altura de nossas saias, o ângulo de nossos decotes e o volume limítrofe das peças que queremos usar. Sob esse aspecto é que reconhecemos o valor da expressão “moda é poder”. Moda, também, é uma forma de enviar mensagens de amor próprio, paixão alheia, encantamento pela vida, ou desencanto. Pode ser uma forma de pedir socorro, uma maneira de enviar mensagens visuais de que algo não está muito bem dentro da gente e, assim, quem sabe conseguir carinho e atenção de seres humanos que se preocupam conosco. Não era essa a oficial função do luto? Moda é uma forma de ser lembrado, rotulado e reconhecido, uma maneira de confundir, de chamar todos os olhares, ou de se tornar invisível. Essa é a deliciosa brincadeira de ilusão que ela propõe aos criativos, aos provocadores, aos bem humorados. Concluindo, eu diria que a moda é um jogo de aparências que às vezes ganhamos, às vezes perdemos. Seguir ou inventar a moda: a regra desse jogo é você quem faz. Vale tudo, desde que o objetivo não seja a busca da real felicidade num traje qualquer. Preste bem atenção. A moda nos deixa nus. Você nunca havia reparado nisso?

A autora, Luciana Gonçalves, é radialista, profissional de telecomunicações e marketing

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