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Che Guevara ressuscitado


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Evo Morales, indígena, líder dos camponeses e plantadores de coca, festeja com razões de sobra a conquista do poder na Bolívia. Repete a chegada de Lula à presidência do Brasil. Na primeira página da Folha de S. Paulo, edição de 21 de janeiro, aparecem dois entusiasmados companheiros de Morales numa foto histórica: ao fundo, um poster de Ernesto Che Guevara, estrela revolucionária na boina.

Que diferença de décadas passadas, quando a foto de Guevara morto, expressão enigmática nos olhos semiabertos, chegava aos brasileiros e ao resto do mundo como o fecho das cortinas de corajosa excursão do herói argentino-cubano à selva boliviana! Fora ele em busca de “um novo Vietnã na América Latina” e ali jazia, abandonado pelos poucos guerrilheiros que toparam segui-lo e abatido a tiros por militares daquele país.

Eu estava na redação do Jornal da Cidade, prestes a fechar a primeira página, na noite em que a UPI (United Press International) divulgava a morte do guerrilheiro. Eu o conhecera em Havana e conservara na memória o seu semblante.

Ao rememorar aquela foto, tenho a impressão de que Guevara antegozava, com o sorriso estampado no rosto, a glória de anos depois ser o símbolo da revolta do povo boliviano, através do voto, contra o status quo que justificara o embrenhamento do modestíssimo exército do Che na selva inóspita da pátria de Morales.

O clima reinante hoje na Bolívia faz lembrar a consagração de líderes populares em várias partes do mundo. Foi assim com Lech Walesa na Polônia, após o fim da II Guerra Mundial. Foi assim também na Espanha e em Portugal. Foi assim sempre que as populações, cansadas de promessas não cumpridas, de processos irrefreáveis de corrupção e do mandonismo de maus detentores do poder, resolveram dar a estes uma banana – com a conseqüente entrega do poder a facções contrárias aos abusos.

A América Latina está vivendo hoje a fase áurea da esquerda e do centro-esquerda – se é que podemos assim catalogar a detenção do poder no Brasil e na Argentina. Chávez governa a Venezuela com seguidos agrados a Fidel Castro e espinafrações no presidente Bush. O Chile acaba de eleger sua primeira mulher presidente, Michelle Bachelet, ex-militante revolucionária, punida com anos de prisão pelos militares direitistas. A esquerda venceu as eleições uruguaias. O Peru e o México, ao que parece, deverão também pender para a esquerda “progressista”.

Trata-se indubitavelmente de uma grande reviravolta, se lembrarmos que até alguns anos atrás Menem imperava na Argentina como porta-voz dos EUA; Pinochet executava seus adversários de esquerda; Fujimori transformava o Peru em cemitério de esquerdistas e contestadores; o Paraguai derrubava presidentes como se fossem castelos de cartas e no Brasil as eleições diretas demandavam anos e anos de lutas das forças progressistas.

O que esperar de Evo Morales, o indígena que se atreveu a mudar – ou tentar mudar – a face de um país em que as elites sempre deram as cartas? Conseguirá driblar os militares e tornar realidade a utopia?

Torcer por Morales e seus companheiros indígenas é dever de todos os humanistas. Afinal, ele representa a imensa legião dos explorados e exibe a imagem de Guevara, como que a proclamar ao mundo: “Aqui o Che deu a vida por um ideal. Que possamos torná-lo realidade!”

Deus queira que não seja o líder boliviano mais um crucificado na quase sempre inglória missão dos idealistas do mundo moderno.

O autor, Nilson Costa, é jornalista

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