Se for mantida a expectativa que vamos terminar 2006 com uma taxa Selic de 16% e uma inflação de 4%, significando um juro real de 12% (que muito provavelmente continuará a ser a maior taxa de juro real do mundo), podemos esquecer o crescimento robusto que Lula imagina poder apresentar como plataforma para a reeleição. Os partidos da Oposição já estão aproveitando essa perspectiva e colocando em destaque nos programas de seus eventuais candidatos a questão dos juros, mostrando que a sustentação das altas taxas é o principal fator de inibição do desenvolvimento e do aumento da oferta de empregos. Um desses programas alternativos é do PSDB que cuidadosamente omite o fato que em oito anos de governo tucano o Brasil conviveu com as maiores taxas de juro do mundo e com quatro anos de controle de câmbio que só terminou quando o país quebrou e teve que ser socorrido pelo FMI.
O governo Lula está facilitando as coisas para a Oposição, na medida em que comete os mesmos erros que FHC cometeu em seu primeiro mandato, ao sustentar um câmbio supervalorizado com uma taxa de juros indecente, fatores relevantes de castração do desenvolvimento. Há apenas dois anos a economia crescia 4.8% e apontava para um crescimento do PIB superior a 5% nos anos seguintes, o que irritou profundamente os mercados financeiros e o Banco Central, reiniciando-se a escalada dos juros que se prolongou até setembro de 2005! Com o aumento das taxas de juro e a valorização cambial, esfriou o ânimo dos empresários que se preparavam para investir, seja para aumentar a oferta destinada ao mercado interno, seja para expandir suas exportações. Possivelmente tivemos um PIB crescendo à taxa medíocre de 2,5% ao final de 2005.
O baixo crescimento não esfriou apenas o ânimo dos nossos empresários, mas afastou os investimentos externos direcionados ao setor produtivo nacional. Os números divulgados neste início de ano mostram que o Brasil vem perdendo posições na atração dos investimentos diretos do exterior e em 2005 foi ultrapassado pelo México. Os investimentos diretos são função da taxa de crescimento do PIB e nisso o Brasil está perdendo de goleada: na medida em que nossa economia foi murchando, ela perdeu também a contribuição do capital externo, o que é mais um fator de inibição do desenvolvimento.
O governo Lula não tem nada melhor a fazer, a não ser jogar todas as suas apostas na retomada do crescimento. O Presidente precisa se dedicar “full time” a esse objetivo e voltar a estimular pessoalmente os empresários, convencido que o que produz o crescimento é o investimento e quem faz o investimento é o empresário . A mola propulsora do desenvolvimento é o empresário e a mola propulsora do empresário é um governo bem arrumado, inteligente e que tenha disposição de manter um diálogo adequado com os setores produtivos.
O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PP-SP, professor emérito da USP. E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br