Quando um disco, filme, espetáculo ou livro é elogiado e criticado com a mesma intensidade, o melhor é duvidar de todas as opiniões e obter outra, pessoal, só possível com o contato direto. O dia 16 de março vai oferecer ao público da região a oportunidade de derrubar opiniões incertas e conferir, ao vivo, o novo show - e por conseqüência, o segundo álbum - da cantora Maria Rita, que se apresenta com sua banda no Bauru Tênis Clube. O show tem apoio do Jornal da Cidade e 96 FM.
Na apresentação, elogiada e criticada nas mesmas medidas nos últimos meses, Maria Rita assina a direção e cenário (com Beto Von Poser) e vem sendo acompanhada por Tiago Costa no piano, Sylvinho Mazzucca no baixo, Cuca Teixeira na bateria e Da Lua na percussão. O repertório, já apresentado nas principais capitais, inclui praticamente todas as canções de “Segundo”, como “Caminho das Águas”, “Recado”, “Casa Pré-Fabricada”, “Sobre Todas as Coisas” e “A Minha Alma”, e um bloco com algumas faixas de seu álbum de estréia, de 2003 - normalmente “A Festa”, “Cara Valente”, “Veja Bem, Meu Bem”, “Pagu” e “Lavadeira do Rio”.
“Encontros e Despedidas”, que foi trilha da novela “Senhora do Destino”, vem entrando em apenas parte das apresentações. Em alguns dos shows, segundo comentários de fãs de Maria Rita, a cantora atendeu pedido do público, mas pareceu cantar a composição de Milton Nascimento com certo descontentamento. Estaria ela cansada da música?
O formato do show segue o que a cantora já havia prezado em sua primeira turnê, com elementos quase jazzísticos e que ganham algum tempero pela percussão e o piano certeiros. O tempero que Lenine, co-produtor de “Segundo”, conseguiu incluir em algumas faixas do disco também é preservado nos arranjos ao vivo. “Os arranjos já estão um pouco diferentes. Com os ensaios, naturalmente, você acaba acrescentando uma coisa aqui, outra ali”, comentou a cantora, em entrevista a um jornal paulista.
Maria Rita, sem dúvida, domina o palco. Herança genética ou não, ela também é temperamental e transparece qualquer aborrecimento com público ou clima. De qualquer forma, sua performance nunca abre espaço para críticas contundentes, já que sua voz, seu jeito, sua pose, é de estrela.
Paixão e comparação
“Sou filha da Elis Regina, está lá no RG. As comparações vão acontecer e são até bem-vindas. Vou brigar por quê?”, afirmou certa vez Maria Rita, em entrevista na época do lançamento de seu primeiro disco, em 2003. As comparações vieram, mais pelo encantamento de quase rever aquela que foi diva maior da música de toda uma geração do que por maldade ou suspeita de golpe de marketing.
Mas Maria Rita sempre soube da paixão pela música - afastada e escondida durante quase toda a adolescência. “A vontade aparecia e eu dava uma cacetada no monstrinho”, brincou, em entrevista à “Folha de S.Paulo”. Nos Estados Unidos, onde formou-se em comunicação, decidiu entregar-se ao que lhe parecia ser correto e ao mesmo tempo duvidoso. Quando voltou ao Brasil, foi convidada para algumas participações em shows e apresentações. O fenômeno ganhou proporções tais com a gravação de “Tristesse”, com Milton Nascimento, para o disco “Pietá”.
“Maria Rita”, o primeiro disco, foi divulgado como “a estréia da cantora que todos estavam esperando”. Foi sucesso de vendas, com quase 1 milhão de cópias - qualidade ou curiosidade, sua música intimista, jazzística, com arranjos de piano e baixo, como Elis fazia, ganhou o Brasil.
A dúvida era: o segundo disco vai superar expectativas? Em entrevistas na época do lançamento, ela explicou o que sentiu com “Segundo”: esse teria sido feito do seu jeito, já que o primeiro disco foi, na verdade, aquele que carregou toda a expectativa que normalmente ronda o segundo trabalho de um artista, algo como “será que vai ser tão bom quanto?”. Ela tinha de provar que seria tão boa quanto sua mãe. Em “Segundo”, estaria livre de qualquer pressão.
“Veio num momento bastante intimista, e isso está bem representado. É uma coisa mais branca, limpa. Foi uma coisa natural. Fomos ensaiando as músicas e a sonoridade foi ficando tão linda que resolvemos deixar aquilo ali”, disse a cantora, em entrevista à “Folha”.
O disco é mais intimista, produção esmerada e ao mesmo tempo solta, onde é quase possível perceber a presença dos músicos ao lado da cantora. Para alguns, parece faltar uma faixa mais alegre como “A Festa”, do primeiro. Para outros, esse é um lado maduro de Maria Rita, até mais sério e intenso. As oposições são somente para provocar, já que a ordem continua sendo a mesma do começo do texto: é preciso ouvir - e em março, ver ao vivo - para chegar a qualquer conclusão. Vai valer a pena.