Conversando certa vez com um paciente sobre loterias, perguntei a ele, que era carpinteiro, o que ele faria se ganhasse 10 milhões de reais na loteria. De imediato ele disse que se ganhasse essa bolada, só assentaria porta. Significava dizer que ele não iria mais se meter em alturas a montar coberturas de construções por achar aquilo um trabalho estafante e insalubre. Quis pensar na ingenuidade de tal resposta, porque diante daquela dinheirama, fica difícil falar em trabalho, uma vez que a sorte bateu na sua casa. Mas o que me veio na cabeça no momento não foi a chacota, mas sim a compreensão do valor que o trabalho exerce na carreira de uma pessoa.
Se você está bem no seu emprego, talvez nem percebamos, mas as coisas caminham com sossego e calma. A família se sente alicerçada pelo pai e pela mãe que comanda a situação e valoriza os esforços em conseguir subir degraus de dignidade, cuja presença espirra gotas de satisfação a dezenas de metros.
O trabalho que o filho consegue também enche os pais de alegria, pois além de contribuir com as finanças domésticas, o menino consegue ter pensamentos e atitudes próprias, calcadas na base forte que é o reconhecimento da sociedade em pagar àquele que presta seus serviços diariamente.
Os exercícios de futurologia que fustigam a cabeça de quem pensa na velhice antecipadamente também se tornam mais fortuitos, porque uma carteira assinada revela uma dor de cabeça a menos para quem não quer depender de favores.
Trabalhar é sentença de absolvição para o corpo que nasceu para sentir todos os ventos que a natureza e o mundo nos trazem. Ninguém quer ficar com a mão estendida esperando a fruta madura cair. Consciências precisam de reconhecimento, de evolução, de aquisições, de conforto.
Se tudo isso não é possível numa cidade ou num país, todos estes fatos e sentimentos com cheiro de vitória permanecem na prateleira do inacessível, que pertence ao armário do desemprego, mobília que habita a casa bagunçada de governos descompromissados com seu povo e sua miséria e, por conseqüência, incompetentes na inglória tarefa de consertar o estado de violência que tal desmazelo ocasiona.
O carpinteiro não se deu conta do montante de dinheiro que a loteria poderia ter lhe trazido, mas sabe de cor e salteado a tabuada da dignidade que o trabalho confere a quem o tem. (O autor, Marcondes Serotini Filho, é ortodontista, cronista, autor dos livros “O Sonho: crônicas escolhidas” e “Os caçadores de tirisco”)