As duas últimas décadas foram marcadas por conquistas no que diz respeito à consciência dos direitos individuais e ambientais. A preservação da variedade biológica não é mais encarada como um modismo ou invenção de ecologistas, mas sim como uma garantia de sobrevivência, equilíbrio e saúde. A prática da exploração indiscriminada dos recursos naturais, o consumismo e a devastação predatória estão nos destruindo. Pertencemos a um sistema de vida interligado e dependente das matérias-primas de que a natureza é composta, motivo suficiente para a conservação das variadas espécies, desde as plantas até os animais.
Uma reforma do pensamento, mudanças comportamentais e de paradigmas só serão conseguidas se as pessoas desenvolverem atitudes mais generosas e compassivas, ou seja, eu respeito o outro porque eu não quero que ele sofra. Esse sentimento básico de compaixão pode ser a alavanca para posturas menos belicosas e egoístas. Portanto, chocam-nos fatos de desrespeito à vida, seja ela humana ou não, e de indiferença ao sofrimento alheio. Cito, para exemplificar, as grotescas e sádicas imagens de caçadores “corajosos” posando junto às presas mortas, a exibição de cabeças de bichos na parede, tapetes de pele no chão e, para pontuar o assunto, as fotos do Troféu Pescador e as da seção Pesca e Lazer, como a de um homem segurando um peixe enorme, do seu tamanho, ferido e morto, exibido realmente como um troféu.
Qual a mensagem simbólica dessa imagem? A de que peixe nem bicho é, que não passa de um produto mercadológico, coisificado e descartável. Ignora-se que ele tenha vida e sinta dor, conforme artigo publicado pelo prof. doutor de fisiologia e comportamento animal, Gilson Luiz Volpato, da Unesp/Botucatu, “Pesque-e-Solte: uma análise crítica”, na Revista Científica Plural, Assis, 2000, em que apresenta argumentos e dados científicos para comprovar a existência fisiológica da dor nos peixes ao serem fisgados por um anzol. Feridos e com o sistema imunológico deprimido, ainda que sejam soltos em seguida, poucas chances terão de sobreviver.
As sorridentes e “orgulhosas” pessoas exibem peixes dizendo que a “briga” durou de uma a duas horas. Duas horas?! Duas horas de sofrimento atroz para o apavorado animal que estava com anzol e farpas fincados na boca. Argumenta a advogada e estudiosa do assunto, Vânia R. Daró, que há uma dificuldade de se sentir empatia pelos peixes porque, além de habitarem meio diverso do nosso - o aquático -, não são mamíferos e vivem em cardumes, o que dificulta a percepção de sua individualidade.
O termo pescaria tem uma conotação mítica e romântica já arraigada no imaginário popular e isso abranda os horríveis crimes cometidos contra os peixes. Não se diz que foram mortos, mas sim “pescados”, atenuando-se a carga emotiva da palavra. Omite-se que eles são atraídos covardemente para uma armadilha: a mesma mão que oferece alimento é a mão que mata. A natureza pede socorro nas águas também, pois além da poluição, das pesquisas e da pesca implacável, agora os animais aquáticos são vítimas das modalidades “esportivas”, da pesca por diversão e lazer.
A banalização da crueldade faz com que sentimentos nada generosos permeiem as atitudes socioambientais, acostumando-nos, por extensão, à violência cotidiana para com os de nossa própria espécie, com relativa frieza e tranqüilidade. Enquanto a vida for mercantilizada e perdurar a associação da morte de animais a atos de proeza, a compaixão continuará em um dos últimos lugares na escala dos valores humanos.
Sonia Marques Joaquim - professora aposentada, Unesp/Bauru - RG 4.424.479