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Medicamentos para emagrecer escondem risco de dependência

Thatiza Curuci
| Tempo de leitura: 3 min

Aos 46 anos, T.R. faz tratamento psiquiátrico para recuperar-se de dependência de remédios usados para emagrecimento. Durante anos, desde que era moça, ela tomou medicamentos manipulados para perder peso. Nos primeiros anos, chegou a emagrecer dez quilos e ficou satisfeita com a aparência, mas não percebeu quando começou a ficar dependente dos remédios. Depois, a droga já não fazia o mesmo efeito de antes, mas ficar sem tomá-la deixava T.R. cada vez mais ansiosa. Foi quando ela percebeu a dependência. Hoje, há dois anos sem tomar remédios, aprendeu a se aceitar. “Gosto do meu corpo do jeito que ele é. Lógico que gostaria de ser magra, mas isso não me preocupa mais”, revela.

O problema de T.R. é comprovado por estatísticas. No ano passado, o relatório da Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (Jife), órgão ligado à Organização das Nações Unidas (ONU), divulgou que o consumo de anorexígenos - drogas anfetamínicas que comprovam a redução ou perda de apetite - no Brasil, cresceu 500%, de 1997 a 2004.

Entram no Brasil, anualmente, 20 toneladas de matéria-prima para a produção desse tipo de droga. E são principalmente as mulheres as mais vulneráveis. Estudo do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogras (Cebid) divulgou neste ano que as mulheres usam dez vezes mais medicamentos para emagrecimento do que os homens.

Comprovando dados nacionais, uma pesquisa realizada em Bauru mostra a incidência de drogas para emagrecimento usadas por mulheres. Preocupados com a predominância do uso de medicamentos para emagrecimento na cidade, o aluno de psicologia da Universidade Sagrado Coração (USC), Thomaz Ormrod, sob orientação do professor Luiz Carlos de Oliveira, desenvolveu a tese de bacharelado “o problema do uso abusivo de anorexígenos e suas conseqüências”.

Responderam um questionário sobre o uso de remédios para emagrecer, 346 alunas universitárias do curso de psicologia da instituição. Os resultados mostram que 26,59% das alunas se utilizam ou já se utilizaram de algum remédio ou chá visando o emagrecimento. Destes, 60,82% são compostos anfetamíncos e sibutramínicos, drogas inibidoras de apetite. “As anfetaminas aceleram o ritmo do organismo e dão mais energia. Por outro lado, geram insônia”, explica Ormrod.

Segundo ele, o culto do corpo perfeito leva os jovens a acabar optando por remédios para conseguir perder peso. “A jovem passa a crer que quem não tem corpo bonito, não é aceito no grupo. Isso estimula a preocupação excessiva com a aparência”, justifica.

Eles ressaltam que os remédios inibidores de apetite, porém, podem ser tomados desde que com acompanhamento médico. “Analisamos que em 66% dos casos, as jovens compram remédios com receita médica, ou seja, com aprovação de um profissional”, fala Oliveira. Mas, nem sempre as jovens seguem orientações médicas. Em alguns casos, procuram maneiras escusas - como pegar com amigos ou conseguir receitas médicas falsas - para continuar a consumir a droga.

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Automedicação

O estudo de Bauru revelou que 18% das mulheres que tomaram remédio para emagrecer conseguiram a droga como cortesia de amigos e familiares. Outras 16%, de maneira ilegal. Prova desta prática é que até receitas médicas são vendidas para que as pessoas consigam comprar remédios controlados, como o JC divulgou em novembro do ano passado.

Na ocasião, o médico clínico geral e cardiologista Wadi Buzalaf registrou boletim de ocorrência porque surgiram receitas médicas com seu nome, todas para medicamento controlado para emagrecimento, com a assinatura dele.

Apurou-se que o carimbo e assinatura em nome de Buzalaf eram falsificados. O princípio ativo receitado no documento, “anfepramona”, é um estimulante que pode causar dependência química. A informação é que as receitas teriam sido vendidas por uma pessoa.

Logo depois, o Departamento de Saúde Coletiva (DSC) de Bauru emitiu um comunicado alertando os responsáveis técnicos por estabelecimentos comerciais farmacêuticos de Bauru sobre a receita falsificada.

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