O que parecia improvável nos dias de hoje - um homem viver à margem de seu tempo - não é, desde que descobrimos no distrito de Tibiriçá, em Bauru, na região central do Estado mais rico do País, um ‘eremita’ de 78 anos de idade, quase isolado do mundo.
Massao Higashi passou a viver assim depois que seus pais partiram para o Japão, na década de 60. Na semana (passada), pela primeira vez em muitas décadas, entrou em um banco para receber sua primeira aposentadoria, de pouco mais de R$ 300, graças à valiosa ajuda e generosidade de Edson Cavalieri, sub-prefeito de Tibiriçá.
Massao Higashi é filho de imigrantes japoneses - Julio Kotaro Higashi e Tossie Higashi. Até onde se sabe, seu pai era proprietário de um dos melhores sítios de Tibiriçá, na década de 50, e teria partido junto com a sua mãe, nos anos 60, para o Japão. “O pai dele era um ótimo produtor. Tinha idéias avançadas para a época, mas acabou indo embora para o Japão na década de 60”, conta Cavalieri, uma espécie de “anjo da guarda” de Massao, que permaneceu no Brasil, vivendo sozinho em um sítio localizado a sete quilômetros de Tibiriçá.
Segundo Cavalieri, Higashi estudou na antiga Escola Mista Japonesa, onde tinha que andar cerca de cinco quilômetros por dia para chegar ao local. Ele explica que “descobriu” Massao durante a realização do Plano Diretor. “Eu sempre via ele lá pelas bandas da Fazenda Barra Grande e um dia eu fui conhecer o local onde ele mora”, relata.
Cavalieri conta que ficou surpreso quando viu onde Massao mora, um casebre com cerca de quatro metros quadrados construídos por ele mesmo utilizando bambus. No local não há energia elétrica e nem água encanada. Massao toma banho no rio Barra Grande, que passa próximo da casa, e para se alimentar depende da boa vontade das pessoas e do que encontra no mato. “Desde que o conheci, eu costumo pagar marmitex para ele”, conta Cavalieri.
Improvisado
Dentro da casa tem uma cama improvisada no chão. A cozinha de Massao fica em outro casebre de bambu, também construído por ele, há alguns metros da casa. Suas roupas (muito precárias) ficam penduradas na varanda de uma casa de alvenaria desabitada, localizada próxima à sua moradia.
Cavalieri providenciou para que Higashi conseguisse tirar seus documentos. Após a emissão dos documentos, ele pôde solicitar o passe-idoso e a aposentadoria de Massao. Cavalieri também providenciou roupas novas para que Massao pudesse ir ao banco receber seu primeiro salário como aposentado, na última sexta-feira.
A equipe de reportagem do JC acompanhou o momento em que Massao recebeu a aposentadoria. Enquanto esperava para ser atendido no caixa exclusivo para idosos, ele parecia à vontade. E como costuma fazer a toda hora, preferiu ficar agachado no chão ao invés de sentar-se em uma das cadeiras para a espera.
Edjane Lúcio Ferreira, 36 anos, proprietária de um bar na zona rural de Tibiriçá, na Fazenda Barra Grande, conta que Massao gosta de construir objetos que precisa e tirar gramas do chão. “Ele freqüenta o meu bar, eu conheço ele há quatro anos. Ele gosta de cuidar do local arrancando uma graminha aqui outra ali. Ele é um ‘engenheiro’ (referindo-se ao casebre que ele próprio construiu)”, diverte-se Ferreira, ao falar sobre o eremita de Tibiriçá.
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De poucas palavras
Massao Higashi não é muito de conversa. Fala pouco, e muda de assunto quando o tema é sua família. “Quando ele não quer responder, ele muda de assunto, principalmente se for sobre a família dele. Ele diz que tem uma irmã que mora em Bauru, um outro mais velho que morreu, além de um terceiro”, explica Edjane Lúcio Ferreira, a vizinha mais próxima.
Em um dos poucos momentos em que falou à reportagem do JC, Massao contou que já chegou a tirar de seu próprio pé 101 bichos no período de três dias. “No primeiro dia tirei 40 bichos, no segundo dia mais 20, no terceiro mais 44. Eu arranco um, entra dez. Eu mesmo tirei os bichos à noite. Eu enxergo bem”, contou, como se narrase um passeio. Enquanto fazíamos a reportagem, Massao fez questão de mostrar que sabe escrever em japonês, desenhando seu nome em uma mesa de bilhar no bar de Ferreira. Assim, aos poucos, ele começa a voltar ao tempo em que vive.
Segundo o “anjo”, Edson Cavalieri, a área social de Tibiriçá ainda apresenta carências, por isso a ajuda entre os próprios moradores é uma constante. “O maior problema em Tibiriçá está na área social. Há problemas de falta de moradias e cerca de 80% dos terrenos daqui não têm escrituras. Por orientação do prefeito Tuga Angerami (PDT), estamos atuando nesta área para tentar resolver os problemas sociais da cidade”, explica o sub-prefeito, lembrando que Angerami tem cooperado de forma ativa com o distrito.