Cultura

De Abraão a Hans Donner

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 2 min

Como professor e gravurista, Aznar ficou surpreso quando, em 1977, o então apresentador do “Fantástico”, Sérgio Chapelin, anunciou a exibição da nova vinheta do programa. “Até então eu só havia visto vinhetas em materiais específicos das artes gráficas mas, mesmo assim, não entendia muito bem o que era. Quando vi na TV, pensei que fosse um equívoco”, diz.

O fato serviu de estímulo para que Aznar iniciasse sua pesquisa, em 1984. Durante seis anos, o professor buscou em livros de outros países, leituras de jornais, gravação de vinhetas televisivas e idas à campo todo o percurso cultural da vinheta. Com dificuldades para encontrar bibliografia, o pesquisador procurou informações com profissionais de comunicação e a surpresa foi constatar que, entre eles, havia divergências quanto à origem e uso dos ornamentos. “Quando entrevistei o Hans Donner, ele não sabia responder o que era de fato uma vinheta”, coloca.

Aznar foi a fundo e encontrou em escritos bíblicos as primeiras vinhetas. “No Gênesis, a videira era utilizada para estabelecer a relação entre Deus e os homens. Aí tivemos a origem da vinheta. Abraão também falava em forma de vinheta, utilizando como referência o caixo de uva para simbolizar Deus”, coloca o professor, para quem a origem da palavra está no Antigo Testamento. “Vinhateiro era quem cultivava as vinhas e vinhetista é quem desenha vinhetas. A semelhança explica a inserção do termo na civilização, passando pelo caráter oral-simbólico que apresentava no livro do Gênesis até a sua utilização pelos meios de comunicação de massa”.

Sua pesquisa dividiu a trajetória da vinheta em quatro fases. De oral-simbólico, na Idade Média, a vinheta passa a ser simbólico-gráfica nas iluminuras, recurso gráfico repleto de elementos decorativos, utilizado para chamar atenção do leitor para os escritos bíblicos. Na Idade Moderna, com o surgimento da Imprensa, as vinhetas passam a exercer uma função gráfico-decorativa, aparecendo nos textos e diplomas, e, na Idade Contemporânea, ocorre a adaptação do termo para os meios de comunicação de massa.

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