Quando precisa levar o filho Gabriel, 2 anos, ao posto de saúde, a doméstica Jussara Leôncio Alves, 32 anos, acorda por volta das 4h da madrugada, caminha por quase duas horas por ruas escuras de terra do Núcleo Habitacional Leão XIII até a Vila Dutra. A paciência é palavra-chave para quem mora num bairro com pouquíssima infra-estrutura. Chegando ao posto de saúde, fila. Que pode durar o dia todo. “Perdi as contas de quantas vezes voltei para casa sem meu filho ser atendido. Mas o que posso fazer? Você precisa ver em dia de chuva”, afirma.
Além da escassez de postos de saúde nos bairros afastados, farmácia também é luxo. Se precisa de medicamentos, a aposentada Nelinda Borges Silva, 62 anos, residente no Parque Santa Terezinha, caminha por quase três horas até o Bairro dos Tangarás. “Já tentei ligar nas farmácias dos bairros mais perto do Centro, mas quando tento explicar, ninguém nem sabe onde fica aqui. E acho que têm medo também”, supõe.
“Gosto daqui, mas falta tudo. Mais do que um bairro escondido, o Manchester é um bairro esquecido. Se falo que moro aqui, a maioria não conhece e quem conhece olha atravessado”, salienta Maria Rodrigues Machado, 50 anos, moradora do Jardim Manchester.
Rodeado por uma área de proteção ambiental (APA), o Jardim Manchester é praticamente um bairro rural. Plantações de milho, banana e pequenas hortas compõem o cenário. Crianças correm descalças pelo chão de terra batida. Idosos esperam o tempo passar olhando a rua. Carroças e roupas estendidas em varais improvisados são comuns. “O Jardim Manchester tem um verde exuberante. Tem potencial para se tornar um bairro muito bonito, mas precisa de investimentos”, explica o coordenador da Defesa Civil em Bauru, Álvaro de Brito.
Vizinho do Jardim Manchester, Olindo Gonçalves Souza passa as tardes conversando com amigos e familiares no Parque Santa Terezinha. Residente no bairro há mais de dez anos, ele conta com tristeza a insegurança de quem mora por lá. “Aqui já foi um bairro muito bom. Hoje está perigoso. Precisamos de um policial para pôr ordem nas coisas”, diz.